Opinião

Banner_manuelcapelo

Verdade ou mentira

A recente e ainda actual polémica sobre a Caixa Geral de Depósitos, bem mais que colocar na agenda dos dias a questão da honorabilidade da palavras dos homens e das instituições que representam, vem questionar o que é isto da verdade e da mentira.

Num resumo breve, em resultado do crescente relativismo do pensamento, é cada vez mais difundido que a verdade é apenas uma mentira que ainda não foi descoberta, da mesma maneira que a mentira é tão só uma verdade do passado, ultrapassada pelo tempo, e assim sucessivamente.

Desta forma, o que somos, pensamos, fazemos e afirmamos está de tal maneira desprovido de certeza e de absoluto que só pode sustentar-se numa intuição efémera de correcção que admite pacientemente vir a ser desmentida.

Porém, o anedótico de tudo isto é ser precisamente neste tempo de relatividade moral que mais se reclama o respaldo do absoluto da verdade e se protesta contra a vergonha de mentir. E mais, logo num domínio tão paradoxalmente evasivo de moralidade e de coerência como é o da política.

É de escangalhar o sério o espectáculo risível de ver políticos acusar outros políticos de não serem verdadeiros por não terem dito a verdade e, no limite, de a sua falta de verdade dever ser tributada com a demissão, por vergonha de carácter.

Sabemos que a primeira coisa de que a política prescinde é da memória e a primeira virtude de que os políticos se despem é da coerência, talvez por levarem muito a sério a máxima filosófica de finais do sec. XVII que sustentava ser a coerência uma virtude das pequenas inteligências. E daí que a verdade na política, bem como em muitos outros domínios da vida para sermos justos, coincida com o tempo em que se mantém um segredo suportado pelo interesse de não o desvendar.

Bem, o resto é a liberdade de cada um representar o papel que mais lhe convém nesta récita de enganos e desenganos, desde o do indignado ao justiceiro; do ingénuo ao lépido ou do pícaro ao tolo.

A história do teatro forneceu ao longo dos séculos todas estas personagens e discursos respectivos de rara qualidade. Mas o pior é que nem sequer é possível desafiar a que só os que nunca mentiram atirem a primeira pedra, porque, se eles só amanhã saberão que a sua verdade de hoje era mentira, decerto continuarão a atirar hoje todas as pedras com a convicção de o poderem fazer.

Outras notícias em Opinião

  • A quem incomodam os achados arqueológicos do parque verde?

    Os achados arqueológicos do Parque Verde estão na ordem do dia. Depois de os ter ocultado à vereação e à população durante semanas, a câmara…

  • Vento ruim

    Um vento ruim sopra do outro lado do Atlântico. Ele, porém, foi prometido. Em regra, as promessas dos políticos, em campanha, são tudo menos terríveis.…

  • Caracteres

    Por razões que os enganos sempre explicam, para aceder à solicitação de colocar em 2.000 caracteres alguma ideia ou reflexão que a actualidade justificasse, dei…

  • Roma Æterna, às portas do Kremlin

    Nos tempos do império romano, falava-se da Roma Eterna, mas foi com o cristianismo que Roma conseguiu verdadeiramente sobreviver à caducidade dos séculos. Inclusivamente, alguns…

  • Batatas, feijões e a loja do cidadão!

    O turismo em Portugal cresce a olhos vistos. A construção de um “Welcome Center”, para receção de turistas, afigura-se-me prioritário para Alcobaça, onde se divulgue,…

  • A porta de vidro de Alcobaça!

    Recentemente a Paróquia de Alcobaça colocou uma porta de vidro na capela do Senhor dos Passos, no mosteiro. Pareceu-me ser um bom melhoramento, um excelente…

  • Ele é um terrorista islâmico?

    O Vasco Mina mostrou-me um “chat” em que participa, no Whatsapp: “Luísa: Vai chegar, no dia 20, uma família da Síria. Temos uma casa que…

  • Recuperar valores em 2017

    A quadra natalícia propicia reflexão. Não querendo ser moralista, julgo que, ao olharmos para dentro, podemos perceber que está na altura de recuperarmos valores como…

  • Segredos da Paz

    Recuemos, neste Natal, ao século VIII antes de Cristo. Nesta viagem no tempo encontraremos o profeta Isaías, que, numa linguagem poética e (passe o pleonasmo)…

  • Missa do Galo na Benedita em 1916

    Faz agora cem anos e já cá não está que me contou, em 1970, esta comovente história. A poeira do tempo apagou alguns detalhes da…