3 concertos ímpares mereceram nota mais elevada, numa 29ª edição do Festival de Jazz Valado Nazaré que voltou a fazer jus à tradição de um evento que se continua a notabilizar como um dos mais ilustres do género a nível nacional.
Dois deles ocorreram na simbólica sala da B.I.R., em Valado dos Frades, feliz contextualização do muito aguardado regresso ao festival do excelentíssimo pianista galego Abe Rábade, agora em trio, com o nosso Bruno Pedroso na bateria e com o seu compatriota Pablo Martin Caminero no contrabaixo. Num concerto de puro e fidedigno sabor jazz, com o sempre erudito, seguro e inventivo Abe Rábade a liderar um trio que se passeou sempre ao seu melhor nível por um envolvente repertório original, com Caminero a fazer das cordas coração e Pedroso a percutir sabiamente todos os cantinhos da sua bateria, num concerto claramente merecedor de todos os vivas possíveis e impossíveis. Jazz a la carte, do bom e do melhor!
Na semana anterior, a mesma sala acolhera o projeto Homo Sapiens, de Mário Costa, reconhecido baterista acima de toda a prova e ainda mais alguma, liderando um trio de estrelas do jazz europeu, cujo perfume luso-francês era também garantido pelo consagrado Bruno Chevillon, no contrabaixo, e pelo bombástico e humorado Christophe Monniot, nos saxofones, libertando uma empolgante atuação em que a voz do jazz contemporâneo vincou, saltando sempre para lá dos limites, mas fazendo-o de um modo tão coerente e tão convicto que toda essa liberdade criativa em palco nos pareceu sempre de um equilíbrio deslumbrante, com Chevillon sempre em pleno como porto seguro de toda aquela imprevisibilidade em palco e momentos absolutamente inesquecíveis de Monniot no sopranino e de Mário Costa, sempre no seu melhor, criativo, inteligente e humorado, incluindo os instantes de pura magia em que transformou o seu metrónomo em instrumento de percussão. Muito bom mesmo e a pedir mais! O adjetivo inesquecível é certamente adequado ao concerto que trouxe o norte-americano Kassa Overall ao festival, numa sua muito aguardada estreia em Portugal, num concerto em que o público que praticamente lotava o Cineteatro da Nazaré vibrou como há muito não víamos num concerto de jazz, neste caso muito especial, de jazz metamorfoseado em hip hop, e vice-versa, arte rara em que Overall se tem dignificado, transmitindo uma nova linguagem à música afro-americana. O homem cantou, declamou, dançou e fez vibrar, quer com a eletrónica ao vivo, quer com o seu vertiginoso e plurifacetado toque de bateria, superiormente acompanhado pelo entusiasmante pianista Matthew Wong e pelo não menos imaginativo baixista Giulio Xavier Cetto, num concerto que quebrou barreiras e mostrou como se conseguem trazer novos mundos ao mundo do jazz de um modo deslumbrante e significativo. Um mimo de som e festa jazzy!




























