Memória

A propósito da imagem de São Bernardo: Um transporte atribulado e… milagroso (I)

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O frontispício da igreja do mosteiro de Alcobaça foi remodelado, como se sabe, a partir de 1702, na base de um projeto elaborado, em finais do século XVII por Fr. João Turriano (1611-1679), monge beneditino, professo no Mosteiro de São Bento da Saúde, em Lisboa (o atual Parlamento), engenheiro-mor do Reino e lente de matemática na Universidade de Coimbra. Quanto às diversas imagens que ornamentam esse mesmo frontispício, são em mármore de Carrara e vieram de Itália – de barco até Lisboa, e, depois, de barcaça até Vila Nova da Rainha, então porto fluvial no rio Tejo.
A imagem de S. Bernardo, à esquerda de quem olha para a fachada (onde faz pendant à de S. Bento, do lado direito) (1), foi colocada em 19 de Novembro de 1711, após uma viagem cuja parte final foi um tanto atribulada. É precisamente o relato, cheio de pormenores interessantes, escrito por Fr. Alberto de São José (c. 1650-1723), cartorário-mor do Mosteiro, de dois incidentes ocorridos durante a última fase do transporte, que oferecemos aqui aos leitores.

«Sucessos que sucederam quando se foi buscar o Nosso Padre S. Bernardo para o frontispício, que estava em Vila Nova (2). Ano de 1711.

Aos 3 dias do mês de outubro de 1711, indo desta Vila de Alcobaça um carro ferrado de quatro rodas de grande peso, saindo o Irmão Fr. Alexandre do Sacramento da Quinta do Archino (3), que é da Marquesa de Arronches (4), e a mais gente que ia na companhia, em que ia também o mestre aparelhador Manuel Denis (5), desta companhia se puseram quatro homens no carro, e, dando em uma sorroda (6), se tombou o carro e caíram todos, e livraram somente três; porém um que [se] não pôde livrar como os três com tanta pressa, que é um homem a que chamam Manuel Marques, do Casal da Carreira, limite de Monte de Bois, termo desta Vila de Alcobaça, ficou debaixo do carro e, pegando-lhe a roda, o arrastou um pedaço e, ao depois, lhe passou a roda por cima pela cintura e costas e lhe rasgou a véstia e casaca; e logo caiu para a banda.
E parecendo a todos os que iam na companhia que o homem perigava mortalmente, acudiu logo o Irmão Fr. Alexandre a perguntar-lhe o que tinha.
Lhe respondeu o homem que o carro o arrastara e lhe passara por cima, e lhe rasgara a véstia e casaca, e que não sentia nada; e com este trabalho e perigo ficou livre, sem lesão alguma; e se levantou e tornou a pôr outra vez no carro como dantes (7).» (Continua.)

Gérard Leroux, antigo Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa. Atual Responsável pelo Arquivo Histórico da Misericórdia de Alcobaça

 

(1) No opúsculo de Maria Augusta Lage Pablo da Trindade FERREIRA, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Roteiro, Lisboa-Mafra , 1987, p. 34, foram trocadas as atribuições das respetivas imagens («à esquerda a estátua de S. Bento e á [sic] direita a de S. Bernardo»). É exatamente o contrário. Por outro lado, Fr. João Turriano não era italiano, como se diz naquele opúsculo, mas sim português (embora de ascendência italiana pelo pai).
(2) Vila Nova da Rainha (concelho de Azambuja), então porto fluvial.
(3) Archino: casal na freguesia de Santa Marta, de Vila Nova da Rainha. A Quinta do Archino ainda existe, sempre nas mãos da mesma família. Veja-se, na Internet: www.quintadoarchino.net
(4) D. Mariana Luísa Francisca de Sousa Tavares da Silva e Mascarenhas († 1743), mulher de Carlos José de Ligne (1661-1713), 5º conde de Miranda, 2º marquês de Arronches, naquela altura embaixador de Portugal na corte de Viena da Áustria.
(5) Aparelhador: encarregado de obra, sob as ordens do arquiteto.
(6) Sorroda: «Sulco feito pelas rodas do carro na terra» (MORAIS, Dicionário).
(7) Extraído de: Fr. Alberto de S. JOSÉ, Índice do Cartório de Alcobaça, Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 483-484. Leitura, transcrição, atualização ortográfica e notas pelo Prof. Gérard LEROUX.

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