Opinião

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A resignação de Bento XVI (II)

Foi o Padre Anselmo Borges, professor de filosofia da Universidade de Coimbra, que assim definiu a resignação de Bento XVI – “gesto de grande coragem, lucidez e honestidade”. Tenho sempre em grande apreço as opiniões do Padre Anselmo Borges no que respeita a religião, e particularmente sobre a Igreja Católica. Daí que acrescente ainda esta sua observação: “Penso que uma das causas maiores do desgaste foi a sua incapacidade para reformar a Cúria Romana, questão essencial para o futuro da Igreja – ele próprio se queixou que lhe sonegavam informações.” Intelectual, afável, quase tímido, Bento XVI nunca foi um homem de administração. Assim se justifica esta tirada do jornal italiano Corriere della Sera: “Tendo falhado mudar a Cúria, o Papa chegou a uma conclusão amarga: era ele que tinha de mudar, indo embora.” O Prof. Viriato Soromenho Marques é outro pensador que me habituei a admirar pelas suas observações de natureza social e política. Escreveu ele, no Diário de Notícias de 14 de fevereiro passado: “Numa era de barbárie crescente, de super-homens e outros aprendizes de feiticeiro, um ato que assume a grandeza da fragilidade só pode ser visto como um bem público.”
Na hora da sua eleição, Bento XVI era considerado o mais conservador dos cardeais. Afinal de contas, sai como um inovador. Ficam significativos gestos de atenção na cultura, um pequeno passo no uso de preservativos, a insistência na reconciliação com as outras principais religiões. E o sobressalto de um homem alemão na visita a Auschwitz – “porquê, Senhor, permaneceste em silêncio?”. Se o arrastar penoso de João Paulo II, nos seus últimos anos de vida, comoveu muitos católicos, o reconhecimento de Bento XVI de falta de forças para levar por diante o seu ministério não deixa de ser um ato sublime. Este desapego ao poder, de um Papa, é um passo enorme na História. A revisão do Código de Direito Canónico de 1983 prevê esta situação. Mas não deixa de ser uma nova tradição na Igreja Católica, como que uma nova doutrina.
Que Papa vamos ter, a seguir? Parafraseando uma vez mais o Padre Anselmo Borges: “Penso num João XXIV”. (Fim)

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