Houve um tempo em que a obediência tinha um rosto e um método.
O pai de família com o avô, era inquestionável, o chefe de família.
O professor que impunha o saber à reguada e o patrão que governava pelo medo. Como analisou Michel Faucoult, vivíamos na Sociedade disciplinar de obediência.
De uma verticalidade cruel, mas o limite era externo: O inimigo estava à vista e a resistência era clara. Sabíamos exatamente contra quem nos rebelávamos, passámos do castigo físico, ao colapso da Alma, para uma tirania invisível.
Na transição para 2026, as comunidades parecem benevolentes e livres, mas a opressão mudou de morada, instala-se no centro da nossa psique.
Passámos de Sujeitos de dever, a sujeitos de desempenho.
Olhamos no espelho o carrasco, que somos nós, pela dor que infligimos a nós mesmos.
O imperativo de “ser melhor” é a nossa nova palmatória.
Daqui resulta uma nova epidemia, de burnout e doenças autoimunes.
É a biologia a reagir à pressão de uma «sociedade liquida como a descreveu Zygmunt Bauman, onde nada é feito para durar, onde trocamos a época das certezas pela das incertezas.
Nesta deriva, perdemos a capacidade de espanto e contemplação. O tempo gasto a capturar imagens pelo telemóvel retira-nos o ato sagrado de contemplar.
Deixámos de ser parte do cenário, para sermos arquivistas digitais, a esta perca de presença, junta-se uma espiritualidade de conveniência; a ilusão de que a melhoria íntima vem por estética, sem esforço ou estudo.
Medicamo-nos para produzir, fotografamos para provar que existimos e “espiritualizamo-nos” para ignorar o vazio. Talvez a resistência em 2026 talvez seja a coragem de desobedecer à nossa tirania interna. É urgente resgatar o espanto antes que o coração desista ou se desconecte do amor, neste hospício contemporâneo. À semelhança do Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, somos cegos que, vendo não veem.
Se não recuperarmos o “ser” contra o “vencer”, chegaremos ao fim da corrida esquecidos de quem realmente eramos.





























