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“A tradição cristã que fez Alcobaça à volta do Mosteiro está disponível para recriar o futuro”

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Em entrevista a’ O ALCOA, D. Manuel Clemente falou do seu primeiro ano como Patriarca de Lisboa e diz apoiar com muito gosto o regresso dos monges a Alcobaça. O seu sonho como pastor é o mesmo do Papa Francisco: chegar a todos.

PERFIL

Nome: D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente
Data de nascimento: 16 de julho de 1948
Naturalidade: Freguesia de S. Pedro e S. Tiago, Torres Vedras
Início de funções como Patriarca de Lisboa: Nomeado pelo Papa Francisco a 18 de maio de 2013 e tomou posse a 7 de julho de 2013

Que recordações e invocações lhe traz esta região de Alcobaça e Nazaré?
Muito boas porque, em muito jovem, quando começou o escutismo no Oeste, em 1964, um dos primeiros agrupamentos a ser fundado foi precisamente o de Alcobaça. Portanto, ainda nos anos 60, princípios dos anos 70, vim aqui muitas vezes, ligado à fundação do agrupamento de escuteiros, que depois daqui transitou para Cós, e depois foi refundado aqui. Toda essa fase foi uma fase de muita presença quer em Alcobaça quer com dirigentes de Alcobaça. Recordo-me depois, em maio de 1979, de uma série de encontros ligados a um centenário do Mosteiro. Como era formado em História e estava a acabar Teologia, os padres aqui da vigararia pediram-me e passei aqui uma semana a visitar todas as paróquias que tinham pertencido aos antigos coutos de Alcobaça. Terminou no final de maio de 79 com uma vinda aqui ao Mosteiro pelo então Presidente da República, o General Ramalho Eanes.

Como define este quase um ano à frente do Patriarcado? Quais as principais mudanças ocorridas na diocese durante este ano?
Não falo muito em mudanças, falo mais em continuações. Criou-se um dinamismo que está a começar e que nos levará até ao final de 2016: um sínodo diocesano. E porquê? Em 1716, o Papa Clemente XI deu este título de patriarcado à diocese de Lisboa, o que vamos comemorar porque a justificação desse título foi também pelo papel missionário que Lisboa tinha tido. O Papa Francisco agora convoca-nos a todos no mesmo sentido missionário. Diz ele para transformar as nossas comunidades em comunidades de missão. Daí que vamos encetar o processo do caminho em conjunto – que é o que a palavra sínodo quer dizer – até 2016. Uma série de iniciativas para congregar as comunidades cristãs, as paróquias, as associações, institutos religiosos presentes na diocese para ver se nos ajudamos mutuamente a encontrar caminhos de missão e também maneiras de chegarmos onde porventura ainda não chegámos.

Qual o seu  sonho como pastor para a sua diocese?
Faço meu  o sonho do Papa Francisco. O Papa Francisco quando nos escreveu esta exortação apostólica, “A Alegria do Evangelho”, que é o programa para os próximos anos, diz lá, a certa altura, que é para concretizar –  a expressão é dele –  o sonho missionário de chegar a todos. É esse também o meu  sonho e o meu  propósito. Enfim, com todos os outros católicos do Patriarcado, cheguemos a todos e onde ainda não chegámos e de como ainda não chegámos. Não é só uma questão de quantidade, é também uma questão de qualidade, da maneira como nós testemunhamos o evangelho. Já o Papa João Paulo II dizia, quando lançou o tema da nova evangelização, que tinha que ser nova no ardor, nova nos métodos e nova nas expressões.

A Igreja da diocese de Lisboa é “uma igreja pobre para os pobres”? É uma “Igreja de portas abertas”?
Tem que ser para ser evangélica, não é? A pobreza de que Jesus Cristo fala, que é essa que o Papa Francisco lembra, não é propriamente da miséria. A miséria é um mal. As pessoas não poderem viver dignamente, isso é um mal. Agora, a pobreza evangélica, a pobreza que Cristo viveu  e aquela que o Papa Francisco quer para a Igreja é a pobreza da disponibilidade, não querer para si egoisticamente, é estar disposto a distribuir os dons que recebeu  de Deus, é ajudar todas as necessidades dos outros, quer materiais, quer espirituais. É esta disponibilidade de partilha que é preciso ganhar, mas isso é o programa cristão. A primeira bem-aventurança é “bem-aventurados os pobres porque deles é o reino dos céus”. É ter um espírito pobre, um espírito disponível, um espírito de partilha e isso é para todos.

A descida de católicos celebrantes preocupa-o? Quais as prioridades da ação pastoral para contrariar este facto?
Nós vimos de épocas muito mais comunitárias do que hoje. As pessoas viviam nas suas terras na grande maioria. Se eram católicas e se tinham tido catequese, muitas delas entravam num ritmo habitual de culto, ao domingo, na missa dominical, que também era um rito social, em que as pessoas se encontravam. Isto hoje não é assim. As pessoas vivem de uma maneira muito dispersa, em muitos casos, levam uma vida muito cansativa e, quando chegam ao fim de semana, querem estar sossegados. Não acho nada que haja diminuição da crença. Agora, acho que a prática regular sofre por esta dispersão social e por esta falta de ritmo comunitário. Aliás, um dos capítulos dessa exortação do Papa Francisco é exatamente a crise do compromisso comunitário. Hoje temos muito menos ritmos acertados de encontro periódico, muito menos. Estamos a ensaiar o que podemos fazer para contrariar esta diminuição da prática. Creio que uma das exigências que este tipo de vida mais disperso levanta é que temos que ser, comunitários certamente, mas intercomunitários. Porque acontece muitas vezes que as pessoas estão num sítio durante a semana, estão noutro sítio ao fim de semana, estão noutro sítio no verão e nas festas principais, no Natal, na Páscoa. Temos que ser certamente mais intercomunitários. Mas agora como? Está tudo ainda em termos hipotéticos, em termos de «vamos a ver».

Veria com bons olhos o regresso de uma pequena comunidade de monges cistercienses ao Mosteiro de Alcobaça?
Acho que era muito bonito. A vida monástica, como é o caso dos cistercienses, o ramo dos beneditinos antigos, é geralmente campestre, como era Alcobaça há 900 anos. Hoje não. Hoje Alcobaça é completamente urbana. O Mosteiro está no meio de uma cidade. Admito que isso seja complicado. Depois há outro problema que é a falta de vocações monásticas masculinas, em geral na Europa. Os monges de Oseira estavam particularmente ligados a essa ideia até porque a Oseira pertencia um mosteiro que está hoje em território português, em Pitões das Júnias. Pelo contacto que tive com alguns deles, se hoje houvesse um núcleo, nem que fosse uma meia dúzia de monges portugueses, seria mais fácil a restauração da vida monástica em Portugal. Alcobaça não sei se, por ser agora um sítio tão urbano, facilitaria, mas até poderia ser. Ou então aqui ao lado em Cós que está aqui perto e que ainda tem um certo retiro rural. Se a ideia fosse para a frente contaria com certeza com o apoio do Patriarcado. Com todo o gosto, todo o gosto mesmo.

Como vê o papel dos órgãos regionais de comunicação social da Igreja?
Tive ocasião aqui há uns três meses de apresentar o livro do jornalista Alexandre Manuel, a “Imprensa periódica da Igreja Católica em Portugal”. Uma das coisas que revela esse estudo é que a imprensa regional periódica, que grande parte é da Igreja Católica, no seu conjunto, terá mais de três milhões de leitores, que trabalha numa área específica que é a da proximidade. Mesmo quando relata coisas que são gerais ou nacionais, fá-lo sempre com uma ótica local, regional e isso é muito importante. Voltando ao Papa Francisco, e àquele problema que ele levanta da crise do compromisso comunitário, a vida comunitária de uma cidade na era da globalidade passa necessariamente pelo reforço dessas redes locais. Somos globais, temos informações de todo o lado, mas também temos terras, ou de nascença ou de vida, e que é preciso revitalizar. E aqui a comunicação social regional tem um papel fundamental para uma sociedade mais humana e humanizada.

Que mensagem final gostaria de deixar aos leitores d’O Alcoa?
Para já, que continuem a ser leitores d’ O ALCOA e se puderem que digam a outros familiares e vizinhos que o sejam também. É uma maneira de cultivarem as suas tradições locais, as suas raízes regionais, e que compensem com este acompanhamento das coisas locais aquilo que hoje ataca tanto as pessoas que é ficarem assim um pouco sem ligações, sem acompanhamento. Então que revitalizem esta rede local que é muito importante quer do ponto de vista cívico, digamos, quer do ponto de vista cristão. Aqui há uma tradição cristã muito bonita, que fez esta terra à volta do Mosteiro e que está disponível também para recriar o futuro.

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