Crise vs Caridade

Vivemos um tempo de insegurança e de recomposição social, onde o que até aqui estava assegurado se revela efémero, frágil e transitório. Veja-se o sistema económico e financeiro por exemplo, onde até hoje muitos viram os ‘outros’ segundo a útil e fatal equação do estatuto social. Descobrimos que afinal somos “iguais” e que o dinheiro em nada credita um honesto status quo. Afinal neste mundo há mais gente além de mim e até pertenço à comunidade humana. O ‘eu’, enfraquecido pelas finanças redescobre num ‘eu’ plural – um ‘nós’, a sua dignidade. A caridade tantas vezes professada de boca adquire agora uma aplicação realisticamente existencial. Afinal somos todos pobres de algum modo e precisamos uns dos outros, nem que seja pela natureza de que somos feitos, tão frágil na sua consistência. A solidariedade, tantas vezes descomprometida e até anónima, ganha na caridade o desafio de ousar sair dos preconceitos e pressupostos sociais instalados nas nossas terras. Nem sempre basta dar um artigo a alguém, pois hoje a pobreza adquire formas tão diversas. Desde a pobreza material ao abandono dos idosos, ou desde a perda do sentido da responsabilidade à ignorância sobre o que significam virtudes e valores, tudo pode ser espaço de solidão e de miséria. Neste sentido a comunidade católica tem dado a certeza de que tem estado, das mais variadas formas, do lado deste grande Povo que somos todos, mas pergunto-me: se a Igreja está do lado do Povo, será que também o Povo está do lado da Igreja? Fica a provocação no âmbito da reflexão atenta e profunda sobre a questão crente no Ano da Fé num contexto de uma densa crise e ao mesmo tempo de uma autêntica esperança.

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