Este Natal, não fui a tua casa

Todos os anos te visitava. Não muitas vezes, é certo, mas sempre no Natal. Levava-te uma pequena lembrança que comprava na mesma loja, para poderes trocar, caso não te servisse. Batia à tua porta ao fim da tarde, já as filhoses estavam feitas, o café quentinho, o lume acesso. Uma corrente de luzes de várias cores piscava numa árvore pequenina que punhas religiosamente à frente da janela da sala. Havia sempre um gato que roçava pelas minhas pernas ou um cão que ladrava no quintal. Também houve porcos, galinhas, coelhos e pombos na tua casa, que fui vendo desaparecer. Não faz mal. A tua casa tem tantos anos como a arca de Noé e todos os recantos do teu pequeno mundo guardam os sons da natureza mais ingénua.
Todos os anos te visitava. Ao chegar junto do teu jardim, contemplava a palmeira de grande porte. Tinha eu uns seis anos quando um dos espinhos das suas folhas me feriu uma perna porque, em vez de ficar sentada na relva, a ver o avô a cortar folha a folha e a carregá-las sobre o ombro, com a força de um gigante, resolvi saltitar à volta dele, a querer sair da terra e voar até ao céu, possivelmente sentada numa das asas da palmeira. Hoje resta apenas a grossa raiz, cortada na base, e a moral da história: não desobedecer ao avô.
Todos os anos te visitava. À tua porta, havia um limoeiro, abrigado ao sol, que foi perdendo os frutos, as folhas e o tronco. Até a raiz foi levada. Ficou apenas o canteiro de terra infértil. Porém, sempre que por lá passava, vinha-me o cheiro do limão.
Todos os anos te visitava mas, este Natal, não fui a tua casa. Porque tu não estavas lá. Eu sabia que não estavas lá. Por isso não te visitei. Mas o Natal não foi vivido sem ti. Tu exististe neste meu Natal. Porque eu queria tanto comprar-te uma prenda, bater à tua porta, olhar para a palmeira do teu jardim, cheirar o limão do limoeiro, comer uma filhós feita por ti e beber do teu café. Mas não fui e não fiz nada disto. Não faz mal. Obrigada, avó, por me teres sempre chamado à tua casa e por eu ter ido sempre.

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