O presente ano fica assinalado por uma significativa homenagem ao consagrado tenor alcobacense Fernando Serafim, através da edição em cd de mais um volume da série Memória, promovida pela MPMP Património Musical Vivo, concebida a partir de fonogramas originais da Fonoteca da Rádio da RTP. Trata-se de uma escrupulosa produção discográfica, integrando gravações de audições radiofónicas da Emissora Nacional, captadas entre 1963 e 1985, período em que o distintivo cantor se revelou e confirmou como um dos mais notáveis e incontornáveis vultos da canção de câmara nacional, inigualável na sua dedicação a compositores portugueses do século vinte, mas também distintivo na ópera e na oratória, que o levaram a atuar um pouco por todo o planeta da música culta, com elevado destaque em papéis principais operáticos em Viena e Salzburgo, entre outras distinções. Fernando Serafim cedo deixou Alcobaça em busca de maiores voos artísticos, tendo começado por estudar canto em Lisboa, no Conservatório Nacional, estudos que seguidamente aprofundou na Áustria, diplomando-se em canto e música de câmara nas classes de eméritos professores. Um dos seus vínculos artísticos mais profundos acentuou-se junto a Fernando Lopes-Graça, com quem se estreou em palco, num recital de 1959, no Ateneu Comercial do Porto, evidenciando-se desde logo como categorizado intérprete de lied, sendo precisamente com uma sua gravação junto a essa exponencial figura da música culta portuguesa que se inicia este cd, eternizando em disco o seu ciclo de canções Mar de Setembro, composto sobre poesia de Eugénio de Andrade. Esta Memória discográfica de Fernando Serafim inclui também lied de autoria de compositores com a importância de Croner de Vasconcellos, Filipe Pires, Luís de Freitas Branco, Viana da Motta, Armando José Fernandes e Filipe de Sousa, que, aliás, o acompanhou ao piano na única vez em que Alcobaça o homenageou condignamente, pela mão da ADEPA, em 28 de abril de 1996, num histórico recital apresentado na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça. Este novo cd de Fernando Serafim ouve-se com o imenso e incontido prazer com que se honra a grandeza da poesia de Fernando Pessoa, Camões, Antero de Quental ou Camilo Pessanha, interpretada pela harmoniosa essência de uma voz de eleição e de um culto cantar que em cada instante eleva bem alto o nosso sentir e o nosso encanto, exemplarmente acompanhado por veneráveis pianistas como Lopes-Graça, Filipe Pires ou Olga Prats. Pena é que Alcobaça continue também neste caso apostada em ignorar um dos maiores vultos da sua cultura, pelo desconhecimento e pela disfunção institucional. Até quando?