Tendo recentemente falecido José Afonso Furtado, uma das mais significativas figuras da cultura contemporânea alcobacense, foi sugestivo que a nossa edilidade tivesse caprichado pela ausência, quer no velório, quer no funeral, ignorando também a falecida e prestigiada personalidade pela falta de qualquer nota pública de pesar pelo seu desaparecimento, desconsiderando a sua inigualável carreira nas áreas da investigação, da fotografia e da literatura, atingindo elevado mérito nesta última, quer como presidente do Instituto Português do Livro, quer no Conselho Superior de Bibliotecas, tendo-se particularmente notabilizado como um dos fundadores do edificante projeto da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas e integrado a Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura. Fosse desconhecimento ou má vontade, não deixou de ser um condenável procedimento de uma edilidade que pouco tempo antes não se tinha esquecido de brindar o centro histórico da cidade e a envolvência do seu secular mosteiro com a partida de um rallye, confirmando que salvaguardar a autêntica cultura local e a sua tradição histórica continua a não ser o seu forte, mantendo-se essencialmente mais dedicada a exercícios culturalmente menos criteriosos, mas de carácter mais gastronómico e recreativo. A recente campanha eleitoral confirmou também que a identidade cultural alcobacense continua a ser genericamente desvirtuada pelas forças políticas locais, que optaram por programas superficiais nesse campo, avultando particularmente nesse enquadramento a falta de qualquer referência à presente ou futura situação da Casa-Museu Vieira Natividade, que desta vez não beneficiou de qualquer alusão programática em nenhuma candidatura, fazendo prever que também essa tão aguardada infraestrutura se encaminha para o lote de projetos abandonados, correndo-se desse modo o grave risco de perda de uma parte importante e fundamental do património histórico e cultural de Alcobaça, dado que o seu precário armazenamento e a sua inviabilidade expositiva o continuam a ameaçar de irreversível degradação. Quem me dera estar errado, mas isto não vai lá com festas e foguetes…