Opinião

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Manoel de Oliveira e a essência das coisas

Levei pela primeira vez alunos ao cinema em 1992, ano em que fiz o estágio pedagógico numa escola do Porto, integrado no quinto ano da licenciatura. Filme escolhido: “O dia do desespero”, de Manoel de Oliveira. Unidade didática do programa de português: conto literário de Camilo Castelo Branco.
A sala de cinema estava praticamente vazia. Os alunos estranharam o facto e comentaram-no. Pedi-lhes apenas que se acomodassem à cadeira e à estética cinematográfica de Manoel de Oliveira, e que procurassem, a partir da tela, compreender a essência da vida e morte de Camilo Castelo Branco. “Manoel de Oliveira vai ser o vosso professor”, disse-lhes.
Entrei pela primeira vez na casa de Manoel de Oliveira em 2014, ano de estreia do Books & Movies. Motivo: convidar o cineasta a vir a Alcobaça, para uma homenagem que a cidade gostaria de lhe prestar. No ano da estreia de um festival que pretende valorizar a arte literária e a arte vídeo, a escolha (unânime) recaiu em Manoel de Oliveira.
O dia estava solarengo, a Foz do Porto luminosa. Subi ao andar do cineasta na companhia de um dos seus filhos e do seu primo Alberto Magalhães. Encontramo-lo junto à mulher. Manoel de Oliveira voltou a ser professor – professor de uma vida artística singular, traduzida por uma voz calma, um olhar certo, uma respiração comovente. Ensinou-me, em poucos minutos, o que pode ser uma vida. Sentado em frente a uma janela por onde se via uma cidade inteira, ele revelou-se um mundo inteiro.
Na impossibilidade de se deslocar a Alcobaça, ofereceu à cidade o seu sorriso, o seu agradecimento e a sua assinatura numa peça em acrílico, que foi colocada no Cine-teatro de Alcobaça, lugar de artes por excelência.
É, de facto, na arte, que se encontra a essência das coisas.
Muito obrigada, Manoel de Oliveira!

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