Manuela Lourenço. “Ser professora é a profissão mais bonita do mundo”

PERFIL

Nome: Maria Manuela da Silva Lourenço
Data de nascimento: 26 de janeiro de 1970
Atividade profissional: professora e, desde julho, diretora do Agrupamento de Escolas de Cister

ORA DIGA LÁ…

Uma terra: São Martinho do Porto, o meu lugar preferido
Um lema de vida: A perfeição não é medida humana
Uma personalidade: Eduardo Lourenço

Como e quando chegou à direção do Agrupamento de Escolas de Cister?

Desde 2012, estive sempre ligada às estruturas intermédias do Agrupamento de Escolas de Cister, fui coordenadora do secretariado de exames, serviço muito exigente pela dimensão do Agrupamento, realizam-se cerca de 1000 todos os anos, e pela responsabilidade deste serviço. Ao mesmo tempo, fui também coordenadora dos Diretores de Turma do Ensino Secundário, integrando por inerência de funções o Conselho Pedagógico. Trabalhei sempre em estreita colaboração com a Direção do Agruapmento e, em 2017, com a saída da professora Dulce  Lopes do cargo de subdiretora, depois de vinte anos ao serviço da gestão educativa, fui convidada pelo professor Gaspar Vaz para o cargo de subdiretora, naquele que sabíamos vir a ser o seu último mandato, convite que muito me honrou. Inevitavelmente, pensava-se no tempo pós Gaspar Vaz, que se tornou de pleno direito uma referência para a educação em Alcobaça. Naturalmente, fui pensando na possibilidade de me candidatar ao cargo de Diretor, colocando ao serviço da educação a experiência já acumulada, muito particular na área pedagógica, que era a “pasta” que estava a meu cargo. Assim, candidatei-me ao procedimento concursal, tendo sido eleita e tomei posse no dia 7 de julho, assumindo este compromisso, que tem sido um enorme desafio, apesar de ser uma realidade que já conheço muito bem.

Como é ser professora?

Tenho repetido uma frase que é muito minha e que define muito bem a forma como encaro a minha profissão: ser professora é a profissão mais bonita do mundo. Estar numa sala de aula com aulas é quase mágico para mim. a possibilidade que um professor tem de contribuir com o seu trabalho para a formação de cidadãos conscientes, esclarecidos, sujeitos de interrogação, capazes de procurar respostas, é de uma responsabilidade enorme. O contacto com os alunos, com a sua espontaneidade, com a sua criatividade, com os desafios que nos colocam diariamente, obriga-nos à ação, à resolução de problemas, a reinventar-nos diariamente para os ajudarmos a encontrar as respostas de que necessitam. De alguma forma, ser professor é como a metáfora usada para o narrador do romance do século XIX, como Deus na criação, esteve lá, mas a sua presença não é visível, o que é uma boa metáfora para explicar o nosso papel no percurso dos alunos.

Qual a principal função da diretora de um Agrupamento?

Permitam-me explicar que a função de Diretor é ao mesmo tempo muito complexa e de uma simplicidade desconcertante. A complexidade está no facto de o Diretor ter de decidir acerca de muita coisa e de coisas muito distintas, decisões pedagógicas e decisões administrativas. A simplicidade desconcertante prende-se com o facto de o Diretor ser também aquele que leva os outros a fazerem, mais do que fazer, é quase como um maestro, os seus gestos permitem a sinfonia, mas não é ele que toca os instrumentos, não é ele que dá a música. Mas é também uma função apaixonante pela dimensão humanista de que se reveste, porque aquilo que faz é com pessoas, para pessoas.

Como vê o Agrupamento de Escolas de Cister?

No início de um ano letivo, já como subdiretora, na sequência das múltiplas tarefas ligadas ao arranque das atividades letivas, ocorreu-me uma passagem da obra Memorial do Convento, de José Saramago, que me pareceu a metáfora perfeita para descrever a forma como sempre vi o Agrupamento. Trata-se do momento em que, finalmente, reunidas as vontades dos homens, a passarola idealizada pelo Padre Bartolomeu Lourenço se ergue no céu. A descrição torna muito visual o peso, a dimensão da passarola, o esforço colocado no momento em que ela se ergue, com referência ao ranger das cordas, mas contrapõe, quase de imediato, a euforia das personagens por concretizarem o sonho visionário de voar. Há nesta perspetiva tanto de utopia como de exigência, se, por um lado, nos move a vontade de prestar um serviço educativo público de qualidade, não deixa de ser quase assustadora a dimensão física, humana e geográfica desta grande instituição. Cister é uma ca(u)sa maravilhosa, desafiante, bonita, é uma cultura e multicultural, é uma escola e são muitas escolas, é um grande agrupamento e é cada uma das suas escolas. É uma oportunidade para intervir e contribuir para a construção de uma sociedade melhor.

Quais os projetos que tem em mente para o Agrupamento?

Colocar a Cidadania como objetivo, visando a preparação dos alunos para a vida e para o exercício de uma cidadania ativa no respeito pelos valores democráticos básicos e pelos direitos humanos; investimento numa educação verdadeiramente inclusiva; ligar o passado e o presente, contribuindo para a coesão em Cister e preservando o legado do Agrupamento; uma cultura de sucesso, de rigor e de exigência na promoção do sucesso educativo e na prevenção do abandono escolar; conduzir o AECister a uma posição de Liderança, de Referência e de Destaque a nível concelhio, regional e nacional,reforçando a sua identidade e proporcionando um referencial de padrões de desempenho; alargar a flexibilização dos currículos, introduzindo componentes locais; comunicar e divulgar projetos e conquistas, fazendo com que a comunidade de AECister tenha orgulho no seu trabalho; implementar um programa de efemérides, rituais e cerimónias que reúnam e aproximem a totalidade da comunidade, motivando, reforçando a sua identidade. Nada disto a sós, é preciso mobilizar, é preciso fundir a visão e a ação e, para isso, só com a colaboração da comunidade escolar.

No que diz respeito à idade média dos docentes, o que faria para incentivar os mais jovens a seguir a carreira de docente?

Esta é uma questão complexa. De facto, a profissão docente é muito pouco procurada pelos jovens. Eu sempre quis ser professora, na minha juventude, ser professor era uma profissão de prestígio. Em poucos anos, tornou-se uma profissão acabrunhada, pouco validada pela sociedade civil e há vários fatores que explicam isso, mas que daria uma discussão vasta que não é para aqui. O grande incentivo virá da forma como os professores se mostrarem aos seus alunos, se assumirem um discurso que eleve esta função, certamente os jovens reconhecerão nela o seu valor intrínseco. Mas também é crucial que o discurso externo à escola mude, tornando-se mais construtivo, reconhecendo o papel desta função para a sociedade e, não estou a escamotear os problemas com que a escola se debate. É preciso que volte a ser uma profissão respeitada, isso acima de tudo, estou convicta que nem é o factor económico que afasta os jovens, é mesmo a falta de reconhecimento e de prestígio que se associou a esta profissão, que, por outro lado, é de uma nobreza indesmentível.

Qual seria a primeira medida que tomava se fosse ministra da Educação?

Não sei, devo humildemente confessar que não sei. Tentei responder de várias formas a esta questão e não encontrei nenhuma resposta. Sou otimista, mas com realismo e tenho consciência que as expectativas acerca de um ministro são sempre muito elevadas, porque as pessoas esperam sempre que a sua atuação tenha influência direta nas suas vidas. E isso não é possível, porque um ministro não pode chegar e decretar o fim de uma era e a inauguração de outra. Há esse paradoxo, às vezes não se muda nada, para que tudo possa mudar. Creio que prefiro ser Diretora de Cister a ser Ministra. Tenho a visão mais clara.

2 respostas

  1. Muito bom, gostei muito mais de ler o que a Manuela aqui diz do que o que está dito em discursos de mjnistros, presidente da Republuca e afins. A Manuela não fala apenas, ela diz muita coisa, e o que diz é simples e muito importante, não é pura demagogia como cansa já ouvir tanta gente fazer! Parabéns Manuela a tua humildade e trabalho hão-de levar o agrupamento de Cister bem longe e alto!

  2. Muito obrigada pela partilha de amor e paixão a esta profissão maravilhosa. Como profissional da área reconheço cada palavra como uma entrega de alma e coração. Vai, concerteza ser um mandato fácil, neste mega maravilhoso que é o AECISTER.
    BEM HAJA! Muito sucesso.

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