Opinião

Banner - OPINIAO Jose maria Andre_professor

O braço de ferro

Numa homilia de Abril, o Papa falou de lutar com Deus até O conseguir vencer. Não é pouco atrevimento, desafiar Deus para um braço de ferro, mas jogando limpo é possível ganhar. Evidentemente, é escusado tentar enganar Nosso Senhor.

Como o tempo da Páscoa é de alegria, a primeira leitura da Missa de terça-feira passada só contou a parte boa da história. Barnabé, um cipriota de linhagem sacerdotal, antes de levar o Evangelho por todo o mundo, começou por vender o campo e depositar o dinheiro aos pés dos Apóstolos (Actos 4, 37). A página seguinte não se leu, porque é pouco Pascal: O casal Ananias e Safira vendeu uma propriedade, guardou algum dinheiro e pôs o resto aos pés dos Apóstolos. Pedro interveio imediatamente: «Ananias, como é que Satanás se apossou do teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço do campo? Não é verdade que, conservando-o sem vender, era teu e, mesmo depois de vendido, o dinheiro era teu? Por que motivo puseste em teu coração fazer tal coisa? Não mentiste aos homens mas a Deus». Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu fulminado e morreu. Passadas três horas, chegou Safira, Pedro repete a censura e Safira cai morta no chão à frente de todos.

Enfim, batota não dá. Mas uma certa veemência funciona, como exemplificou o Papa na homilia. Um dia, o povo de Israel portou-se tão mal que Nosso Senhor disse a Moisés: «Agora, deixa-me; a minha cólera vai inflamar-se contra eles e destruí-los». Moisés, que sentia a responsabilidade do povo, começa o braço de ferro: «Porquê, Senhor, a vossa cólera se inflamará contra o vosso povo, que fizestes sair do Egipto com tão grande poder e com mão tão poderosa? Não convém que se possa dizer no Egipto: “Foi com má intenção que Ele os fez sair, foi para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra!”». Moisés, explicou o Papa, tenta persuadir Deus, com mansidão, mas também com firmeza: «Recordai-Vos de Abraão, de Isaac e de Israel, vossos servos, aos quais juraste por Vós mesmo: “tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei”».

Moisés vence em toda a linha. Ainda na sua ira, o Senhor promete a Moisés: «Farei de ti uma grande nação». Mas o Papa descreve a reacção de Moisés: «Não, ou com o povo ou nada. Se fizerdes morrer este povo, matais-me também a mim». Deus não resistiu mais.

O Papa recordou outros exemplos tirados da Bíblia: o de Abrão, quando o Senhor lhe diz que destruirá Sodoma. Abrão tinha lá um sobrinho e queria salvá-lo. Começa outro braço de ferro. Abraão a regatear, como uma dona de casa no mercado: «Mas, Senhor, espera um pouco, se houver lá 40 justos… se houver 40 justos, não destruirei». Infelizmente, não havia. «Desculpai-me Senhor, e se houver 30 justos?». «Não destruirei». «E se houver 20, se…». Afinal, só a família do sobrinho era justa e, negociando na oração, Abrão consegue salvá-lo.

O Papa lembrou Ana, a mãe de Samuel que balbuciava em voz baixa a sua oração, insistindo teimosamente, a rezar, a rezar, a rezar. O sacerdote que a via mover os lábios em silêncio pensou que estivesse bêbada. Pelo contrário! Ana vence o braço de ferro e obtém de Deus o que queria. Outra mulher corajosa é a cananeia do Evangelho, que não desarma. Jesus diz-lhe «Não se pode tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cãezinhos». Nem assim desanima: «Também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos». E consegue que Jesus faça o milagre.

O Papa Francisco sintetizou os exemplos dizendo que «é preciso coragem, aquela “parrêsia”, aquele desassombro de falar cara a cara com Deus. (…) Podemos pensar que é um braço de ferro com Deus (…). A verdadeira oração é com coragem, com muita coragem».

«Como sei que o Senhor me ouve? Temos uma segurança: Jesus. Ele é o grande intercessor. Ele subiu ao Céu, está diante do Pai a interceder por nós. Ele intercede continuamente na oração. Antes da Paixão, tinha dito a Pedro: “Pedro, Pedro, rezarei por ti, para que a tua fé não desfaleça”. Eis a intercessão de Jesus, que reza por nós, neste momento. E quando rezo, tentando convencer Deus, ou negociando, ou balbuciando, ou debatendo com Nosso Senhor, é Ele quem recolhe a minha prece e a apresenta ao Pai».

Outras notícias em Opinião

  • O Vaticano e as divindades pagãs

    A ideia de construir um museu nasceu há mais de cinco séculos na cabeça de alguns Papas. A palavra «museu» não existia e, menos ainda,…

  • Princípio da solidariedade

    O princípio da solidariedade é o último dos seis consagrados no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI): ele sintetiza de algum modo os restantes,…

  • O Inferno, o Céu e a oração do rico

    O mês de novembro é dedicado aos mistérios do encontro ou desencontro com Deus. Pode ser um encontro feliz, inesgotável e exultante, ou pode ser…

  • Princípio da participação

    Cada um de nós faz parte de uma família; e, em maior ou menor grau, faz parte de uma ou mais associações, outras instituições, empresas,…

  • O valor do Património Cultural

    “Se destruís o passado, destruís a alma. Ficais sem raízes para corrigir o futuro. Os homens foram notáveis pelo que fizeram de notável”. Palavras colocadas…

  • Princípio da subsidiariedade

    O princípio da subsidiariedade baseia-se na dignidade e autonomia de cada pessoa e família, defendendo que as diferentes organizações privadas, com ou sem fins lucrativos,…

  • Destino Universal dos Bens 2166

    Este é o terceiro princípio fundamental da doutrina social da Igreja (DSI), depois da igual dignidade humana e do bem comum abordados em artigos anteriores…

  • A festa da alegria

    Nestas últimas semanas, a Igreja lançou, em todo o mundo, um projecto renovado de evangelização. Este mês de outubro foi declarado um Mês Missionário Extraordinário,…

  • Rasoamanarivo

    A 7 de setembro, durante a viagem a Moçambique, Madagáscar e República da Maurícia, o Papa fez questão de visitar o túmulo de Victoire Rasoamanarivo,…

  • Francisco e Bento XVI publicam um livro em parceria

    Os autores são Papa Francisco e Bento XVI, o título é “Não façam mal a nenhum destes pequeninos. A voz de Pedro contra a pedofilia”.…