Há quase 3 décadas que a S. A. Marionetas habituou o seu público ao trabalho de qualidade que permite aguardar sempre com imensa e fundamentada expetativa qualquer nova realização da sua arte que ri. A recente noite de 21 de junho assinalou a estreia de mais uma produção da aclamada e premiada companhia alcobacense, cujo talento abraçou literalmente o mundo e os 5 continentes deste planeta, honrando agora o Cineteatro de Alcobaça com a primeira apresentação ao vivo da sua nova peça para teatro de marionetas, em que sob o título Cabaret Voltaire homenageia e reinventa teatralmente o mítico café de Zurique onde no início do passado século, em agitado período de 1ª Guerra Mundial, teve origem o exuberante e seminal movimento Dadá, um dos mais desassombrados e irreverentes da história da arte.
Uma produção artística desta envergadura exige conhecimento adquirido e um apurado e interessado trabalho de investigação, a partir do qual se arquiteta o trabalho de criação propriamente dito, tendo-se mais uma vez os imparáveis José Gil, Sofia Vinagre e Natacha Pereira demonstrado exemplares em termos de encenação, construção e figurinos das marionetas e sonoplastia, superiormente finalizados pela inimitável manipulação e movimentação dos atores em palco, juntando e potenciando sabedoria, humor e a profunda paixão que o trabalho cénico destes artistas liberta. Este Cabaret Voltaire da S. A. Marionetas é uma iniludível lição de História que o público interessadamente acolhe ao vivo e a cores, e elas são mesmo muitas, encantado pelo peculiar e genuíno sorriso performático dos criadores/ intérpretes, pela sua mímica de eleição, pela especial qualidade de recriação histórica e pelo caleidoscópico trabalho de sonoplastia em palco, autêntica reinvenção Dadá que por vezes transforma este teatro de marionetas num inesperado e inspirador live act de nova música improvisada . Está mais uma vez de parabéns uma das mais importantes e fundamentais companhias artísticas alcobacenses, que neste caso merecia certamente mais que o reduzido mas muito interessado público que se encantou com esta sua brilhantíssima estreia, sorte que brevemente se alargará a outros públicos, numa digressão que correrá o mundo e passará muito provavelmente pelo que ainda subsiste do próprio Cabaret Voltaire, que tal como esta excelentíssima arte se mantém vivo e rejuvenescido através do tempo, questionando as razões da existência.