O Juiz, o Sócrates, as demissões

Alcina Gonçalves
Empresária - Turismo e Animação

Surpreende-me a indignação do povo com a decisão instrutória do caso Marquês, ao pedir a demissão do Juiz e ao torná-lo no vilão dum filme do qual ele não é protagonista. É curioso. Não vi esta indignação quando o Senhor Engenheiro Sócrates era Primeiro-Ministro (2005 a 2011). Vi muito pouca gente a pedir sua demissão na altura. Adoravam-no, idolatravam-no. Lembro-me que de todos os quadrantes políticos se prestava vassalagem a este homem que vestia Prada, falava bem, era requintado, passava férias de luxo, havia dinheiro a rodos. E ricos a rodos neste país à beira-mar plantado. No fundo o povo desculpava tudo, fazia que não via, queria ser como o Sócrates, somos basicamente um país de invejosos e de subservientes.
O Juiz limitou-se a aplicar o direito (sim, a leis estão mal feitas e favorecem os poderosos que podem litigar), ou se aplicou mal, o Ministério Público pode e deve recorrer. Não são os erros do Juiz ou do Ministério Público que me levam a escrever, o que me leva a escrever é a hipocrisia do povo, que não viu ou não quis ver (às vezes é preferível ir na onda) o homem que nos governou durante anos. Muitos foram cúmplices e complacentes, alguns estão neste momento na TV como comentadores a pedir justiça, outros fazem parte do atual governo. Vergonha!
Relembro alguns casos que já eram mais do que evidentes: Costumo dizer que Sócrates começou a praticar atos duvidosos enquanto Ministro do Ambiente no aterro sanitário da Cova da Beira, depois seguem-se tantos casos que talvez me esqueça de alguns: Freeport, licenciatura, caso PT/ BES, a compra da TVI pela PT, com um tal Rui Pedro Soares envolvido, as muitas PPP, a Parque Escolar, etc.
Para quem não tem memória, à época pelo menos duas pessoas levantavam questões e afrontavam o poder instituído, a jornalista Manuela Moura Guedes, que foi banida da TVI e considerada uma histérica, e Medina Carreira, considerado o profeta da desgraça. Tudo o resto estendia a passadeira vermelha a Sócrates e agora vêm, quais virgens ofendidas, pedir a demissão do Juiz Ivo Rosa. Isto diz muito sobre o povo e o país que temos.

Alcina Gonçalves
Empresária - Turismo e Animação

Uma resposta

  1. Visão oportuna. A vassalagem ao poder parece estar a tornar-se uma constante e a “normalizar” as relações na sociedade actual. A saga continua e eterniza-se com situações que atravessam o dia-a-dia, sem que haja forma de a obstaculizar e terminar

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