As grutas do vale do Carvalhal de Aljubarrota, silenciosas testemunhas de milénios de história, permanecem hoje como um dos tesouros arqueológicos menos conhecidos do concelho de Alcobaça. Entre a vegetação densa e os afloramentos calcários, este vale guarda dezenas de cavidades naturais onde, há cerca de seis mil anos, comunidades neolíticas viveram, enterraram os seus mortos e deixaram marcas profundas da sua passagem.
Os materiais recolhidos nas campanhas encontram-se actualmente em estudo no Mosteiro de Alcobaça, com a autorização da Dra. Ana Pagará, responsável pela tutela do material. As prospecções de campo decorreram no ano de 2022 com o apoio logístico da Câmara Municipal de Alcobaça, na pessoa do Dr. Hermínio Rodrigues, cuja colaboração foi essencial para os trabalhos de investigação e recolha de materiais no interior das grutas. Actualmente, novas análises científicas — como datações por radiocarbono, estudos de estrôncio e de isótopos estáveis — estão a permitir compreender melhor a dieta, os padrões de mobilidade e as práticas quotidianas destas antigas populações. Investigações sobre a proveniência de matérias-primas, como a fibrolite e o marfim, têm contado com a colaboração de destacados investigadores nacionais, entre os quais a Prof.ª Dra. Ana Catarina Sousa (P.C., I.P.) e o Prof. Dr. João Luís Cardoso (ICArEHB, UAlg). Apesar da sua relevância científica, o acesso ao vale continua limitado e o estado de conservação de algumas grutas é motivo de preocupação. A erosão natural, a vegetação invasora e a ausência de vigilância colocam em risco um património que, em muitos casos, permanece sem protecção legal efectiva.
Mais do que um legado arqueológico, o vale do Carvalhal é um espaço vivo da memória colectiva. Entre o silêncio das rochas e o eco do tempo, continua a desafiar investigadores e cidadãos a descobrir o que ainda falta compreender sobre o nosso passado comum.