Hoje ouvi uma criança responder a uma senhora que lhe perguntou, com a naturalidade de quem antecipa o início de mais um ano letivo:
— Então, amanhã começam as aulas?
A resposta da criança surpreendeu-me:
— Sim. Amanhã vou para a guerra.
Fiquei a pensar naquela frase. Talvez tenha sido apenas uma forma exagerada de uma criança expressar que não queria que as férias terminassem. Talvez tenha sido uma brincadeira. Talvez tenha dito aquilo sem pensar verdadeiramente no significado das palavras. Mas aquela resposta ficou comigo. Lembrei-me de quando eu era criança e do que significava, para mim, o regresso às aulas. Havia alguma ansiedade, naturalmente. Era o fim das férias, dos dias sem horários e das brincadeiras sem pressa. Mas havia também entusiasmo: voltar a ver os amigos, reencontrar os professores, contar as novidades e voltar à rotina.
E então pensei: será que todas as crianças sentem o mesmo? A verdade é que não. Para algumas crianças, a escola é um lugar de descoberta, amizade, aprendizagem e pertença. É um espaço onde se sentem vistas, aceites e seguras. Mas, para outras, a escola pode representar medo, ansiedade, solidão ou sofrimento. Pode ser o lugar onde enfrentam o bullying, a exclusão, a pressão para corresponder, às dificuldades de aprendizagem, o medo de falhar, a comparação constante ou a sensação de não serem suficientemente boas.
E há crianças que chegam à escola já cansadas emocionalmente, carregando preocupações que muitas vezes os adultos nem imaginam. Por isso, o início do ano letivo não deveria ser apenas sobre mochilas novas, livros, horários e material escolar. Deveria ser também um momento para perguntarmos: Como é que o meu filho se sente quando pensa em voltar à escola? Nem sempre a resposta estará nas palavras.
Uma criança pode dizer “não quero ir” e parecer apenas contrariada. Mas pode estar ansiosa. Pode começar a ter dores de barriga, dores de cabeça ou dificuldade em dormir. Pode ficar mais irritável, mais calada ou mais isolada. Pode perder o interesse por coisas de que gostava. Pode começar a inventar desculpas para não ir à escola. Pode dizer “não tenho amigos”, “ninguém gosta de mim”, “sou burro” ou, simplesmente, “não quero falar sobre isso”. E é aqui que nós, adultos, temos um papel fundamental. Precisamos de aprender a escutar para além das palavras.
Nem todas as crianças conseguem dizer: “Estou ansiosa”, “tenho medo”, “sinto-me excluída” ou “não me sinto segura”. Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro através do comportamento. Por isso, neste regresso às aulas, talvez devêssemos trocar algumas perguntas. Em vez de perguntarmos apenas: “Já tens tudo preparado?” “Já fizeste os trabalhos?” “Que notas queres ter este ano?” “Estás preparado para voltar?” Podemos perguntar: “Como te sentes por voltar à escola?” “Há alguma coisa que te preocupe?” “Há alguém ou alguma situação que te esteja a deixar desconfortável?” “O que gostarias que fosse diferente este ano?” E, sobretudo, podermos dizer: “Se alguma coisa te fizer sofrer, podes contar comigo.” Porque uma criança que sabe que pode falar, sem ser julgada ou desvalorizada, tem uma rede de segurança.
Pais, professores, educadores e toda a comunidade escolar têm uma responsabilidade partilhada: construir escolas onde aprender seja importante, mas onde sentir-se seguro seja indispensável. Não podemos proteger as nossas crianças de todas as dificuldades. Elas vão enfrentar conflitos, frustrações, desafios e momentos de insucesso. E isso também faz parte de crescer. Mas podemos garantir que não precisam enfrentar tudo sozinhas. Aquela criança disse: “Amanhã vou para a guerra.” Não sabemos o que aquela frase significava realmente. Mas talvez possamos usá-la como um convite à reflexão.
Porque, se para algumas crianças o regresso às aulas significa reencontrar amigos e descobrir coisas novas, para outras pode significar voltar a um lugar onde se sentem pequenas, sozinhas ou com medo. E nós precisamos de estar atentos. Este setembro, antes de perguntarmos às nossas crianças se têm a mochila pronta, talvez devêssemos perguntar-lhes se o coração está preparado. Porque uma escola verdadeiramente segura não é aquela onde nunca existem problemas. É aquela onde uma criança sabe que, quando surgir um problema, haverá um adulto disponível para a ouvir, acreditar nela e ajudar.
Que este novo ano letivo seja, para todas as nossas crianças, muito mais do que um regresso à rotina. Que seja um regresso à aprendizagem, às amizades, à descoberta e, acima de tudo, à segurança e ao sentimento de pertença. Porque nenhuma criança deveria sentir que, amanhã, vai para uma guerra.





























