Os bons ditadores

José Maria André
Professor do I. S. Técnico

Alguns ditadores (pelo menos alguns) não são más pessoas e querem, com mais ou menos sinceridade, o bem do povo. O problema é que se consideram muito mais inteligentes que todos os outros e portanto, para bem do povo, impõem a todos a sua opinião. É como um pai que se sente responsável pelo filho bebé e não o deixa fazer tudo o que quer. Por vezes, tem de lhe dar um beijinho e dizer «não, meu querido, não pode ir para o meio da estrada», enquanto o abraça e o segura com firmeza.
Os ditadores não são sempre a encarnação do mal, por vezes são apenas uns sujeitos incansavelmente paternalistas. Chegam a trabalhar sem parar, com uma generosidade insuportável, para obrigar a sociedade a fazer o bem. Por vezes, a sociedade resiste-lhes e, então, para garantirem o bem, empregam meios bastante maus. Não é que eles queiram fazer o mal. A culpa é da sociedade —pensam eles—, que resiste à sabedoria das suas doces ordens.
Não é fácil aturar os ditadores.
Deus, que conhece melhor o que é bom, respeita a liberdade humana com uma delicadeza extraordinária e gosta da criatividade individual, conta com ela para encher o mundo de beleza e de harmonia. Deus gosta da diversidade. O ditador, embora se julgue em vários aspectos superior a Deus, acaba por formatar tudo e todos. A ferro e fogo. Não é nada agradável aturar essa gente!
Quando se redigiu a actual Constituição da República Portuguesa, um pequeno grupo de deputados teve o rasgo de sugerir ao Parlamento que fosse expressamente proibido que o Estado impusesse qualquer ideologia na educação. Conseguiu até convencer alguns deputados de inspiração marxista a votar tal coisa. Alguns, por pensarem que isso era apenas condenar o regime anterior, outros, porque esse limite lhes pareceu irrelevante para quando, um dia, controlassem o poder.
A nossa infelicidade é que uma Constituição não trava os bons ditadores. Chegados ao poder, essas boas almas não hesitam em impor a toda a sociedade a sua ideologia. Obviamente, a bem do povo.
A disciplina intitulada Cidadania e Desenvolvimento foi fruto dessas intenções. Com o pretexto de responder à especificidade das escolas, nunca tem um programa definido. Tinha um conjunto opaco de objectivos, abertos às aberrações ideológicas dos seus promotores, com o cuidado de as ocultar às famílias e à sociedade.
O motivo de tais precauções era o supremo bem do povo, porque não se pode esperar que esse povo impreparado autorize a doutrinação das crianças. Os pais são o pior travão do progresso! Para bem do povo, o Governo português actuou às escondidas, envolvendo a sua ideologia favorita em elogios: direitos, saúde, segurança, inclusão… Paralelamente, para bem do povo, o Governo chegava a ser cruel, castigando severamente os filhos e tentando tirá-los à família, quando os pais não aceitavam a imposição estatal. Claro, a culpa é das famílias rebeldes. Os ditadores só querem educar o povo na sua ideologia, a culpa da violência estatal é do povo, quando se recusa a ser educado. O actual Governo decidiu moderar um pouco o furor pedagógico das anteriores hordas de ditadores. Manteve um pouco de ideologia de género, mas não facilita a apresentação de material pornográfico, nem fomenta as experiências de iniciação sexual das crianças. Infelizmente, continua a impor a ideologia de género, segundo a qual ser homem ou mulher (ou outra coisa) é uma questão de opinião. O Governo não expulsou os ditadores do Ministério da Educação, nem sequer se propôs isso, em nome da estabilidade política. Assim, para bem do povo, as pobres crianças continuarão a sofrer, agora em dose atenuada, a formatação ideológica. É difícil aturar os ditadores. Por melhores que sejam.

José Maria André
Professor do I. S. Técnico

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