“Ser padre é estar disponível ao serviço da Igreja e do Evangelho onde for necessário”

Foto por Catarina Reis

Em entrevista a’ O ALCOA, o italiano Paolo Laggata, um dos padres recém-ordenados do Patriarcado de Lisboa e que tem trabalhado na paróquia da Nazaré, falou do seu percurso, da sua família e da sua formação e do futuro da Igreja.

PERFIL

Nome: Paolo Lagatta
Data de nascimento: 23 de junho de 1984
Naturalidade: Melfi, Itália
Data de Ordenação Sacerdotal: 28 de junho de 2015

Como foi a sua infância e adolescência?
Foi muito boa, nasci numa cidade pequena onde toda a gente se conhece, rodeado pela minha família. Sou o mais velho de oito irmãos, a mais pequena tem agora 14 anos e eu tive uma educação na fé católica que me ajudou e que foi um pouco a base de toda a minha caminhada. Para mim, Deus era uma presença, uma realidade, que via nos meus pais, na minha família e no amor que os unia apesar das dificuldades e da precariedade económica. Lembro-me também da Oração das Laudes ao domingo que rezávamos todos juntos em família.

O que queria ser quando era criança?
Eu queria mesmo ser padre, até queria ser papa. Vim do Caminho Neocatecumenal, onde a figura do padre era mais visível, mais próxima da população e não um “ser” distante e isso marcou-me. Ser padre era algo que o Senhor tinha colocado no meu coração. Atraído por aquilo que os padres faziam, os missionários sobretudo, aqueles que envagelizavam em outras terras. O Padre Antonello que me acompanhou agora na ordenação foi um padre que me marcou profundamente, porque ele era itinerante, sobretudo em terras em que o Evangelho é desconhecido e chamou-me a atenção essa forma de ser padre.

Quando e em que momento sentiu que era esta a sua vocação?
Foi nas Jornadas Mundiais da Juventude em Paris de 1997, tinha 13 anos, nesse encontro fomos visitar a terra de São João Maria Vianney, mais conhecido como Santo Cura d’Ars. Foi um momento muito forte que me marcou, eu fiquei muito tocado pela simplicidade desse homem e sua bondade, eu queria ser assim. Depois, o próprio encontro com João Paulo II ajudou-me a sentir que a Igreja era jovem, nova nos métodos e nova nas expressões.

Como foi o percurso da sua formação e como surgiu a Nazaré?
Eu entrei no seminário depois de uma série de peripécias, fui -me afastando da Igreja e desta vocação que Deus me tinha colocado no coração, rejeitando-a pela vergonha com que tinha que enfrentar os meus amigos que eram ateus. Nessa altura, fui à procura de muita coisa má, mas não encontrei nada comparado com a experiência que tive quando tinha 13 anos e este desejo de ser padre. Entrei no seminário em 2003, cheguei a Portugal, a Lisboa, por sorteio, no dia 21 de setembro de 2003. Entrei no seminário, fiz um período de formação, depois da missão regressei e terminei os estudos. Houve um momento de crise em que queria abandonar tudo, abandonar o seminário, abandonar a vocação. Às portas de ser diácono, fui enviado para Israel, quando regressei a Portugal como diácono, calha-me a Nazaré. Fiquei muito feliz pois sinto-me como filho da terra.

Que experiências mais positivas destaca na sua caminhada rumo ao sacerdócio?
Estes seis ou sete meses de diaconato foram surpreendentes. A princípio tinha muito medo porque era uma experiência mais direta, mas houve vários momentos que me marcaram: a visita pastoral, onde senti a Igreja presente pela figura do bispo, foi muito bom para ter este conhecimento da paróquia; outro momento que mais me impressionou foi o Sermão do Encontro na Quaresma, muito forte! A Via-Sacra e a festa do Homem do Mar.

Já nos disse que houve momentos difíceis e dúvidas…
Na altura do seminário sim, muitas dúvidas e muitos momentos difíceis. Olhava para mim, para as minha incapacidades, defeitos e os meus pecados e isso escandalizava-me, porque eu pensava que para ser padre tinha que ser perfeito e impecável. Antes de entrar no seminário, eu tinha passado uma fase de rebeldia, em que não aceitava a minha família, odiava o meu pai, batia nos meus irmãos, entrei na música heavy metal, no mundo do álcool e das drogas. O seminário, a mim, salvou-me. Deus continuou a ser fiel comigo, e ao seu projeto. Ainda hoje isto me surpreende: como escolhe uma pessoa para ser sacerdote, em que não interessa tanto as qualidades da pessoa mas a obra que quer realizar e aqueles que pensou salvar através dessa pessoa. Foram precisos 12 anos de seminário.

O que sentiu no momento da sua ordenação?
Uma emoção muito forte. Ainda agora me arrepia só de pensar nisso.

O que é, para si, ser padre?
É estar disponível ao serviço da Igreja, ao serviço do Evangelho, onde for necessário e, tanto quanto me seja possível, sem ilusões, ou seja, configurar-me com Jesus Cristo cuja missão passou pela cruz.

Quais as suas expetativas para o futuro?
Ser testemunha da ressureição de Cristo.

O que é para si a Igreja? Como a vê em termos de fundamentos, linguagens, necessidades e desafios?
Conheci a Igreja através do Caminho Neocatecumenal. Se penso na Igreja hoje, automaticamente penso em pessoas concretas, com as quais eu partilho a minha caminhada na fé. A Igreja tem tentado adequar a sua linguagem à realidade, renovada e reformulada, indo ao encontro e acolhendo de acordo com a realidade e necessidades que as pessoas estão a viver. O grande desafio é conseguir chegar a todo lado.

Que mensagem gostaria de deixar aos leitores d’O ALCOA?
Que a fé seja algo que chame a atenção das pessoas. Não viver numa Igreja fundada apenas no particular, em que cada um pensa só na sua salvação e aperfeiçoamento pessoal, sem se preocupar com os outros.

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