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Um caminho por baixo de terra

Inesperadamente (29 de Junho), o Papa Francisco entregou ao Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, nove fragmentos ósseos de há dois mil anos, provenientes de uma tumba situada por baixo da basílica de S. Pedro.

A tumba é visitável, embora o pedido tenha de ser feito com meses de antecedência. Entramos por uma pequena porta na parede exterior da basílica, em frente da casa do Papa. A porta é pequena, mas qualquer guarda suíço sabe indicar. Descem-se uns degraus, segue-se por um corredor e entra-se num mundo silencioso. O chão é rocha natural, tufo vulcânico de Roma; o tecto é a face inferior do chão da cripta da basílica. Trata-se de um antigo cemitério romano, com a sua malha de arruamentos entre os jazigos. Há dois mil anos atrás, em vez do tecto, via-se o céu.

O afortunado que consegue entrar naquela pequena porta tem de contar com bastante tempo para percorrer o cemitério e convém levar um arqueólogo que conheça bem o local.

À esquerda e à direita, vemos jazigos, alguns com a dimensão própria da capital do império, com prateleiras com pequenas ânforas, pequenos frascos, com as cinzas dos defuntos da família, como era costume dos pagãos. Só os judeus enterravam os corpos sem os cremar, em sinal de respeito pelo corpo e como símbolo da ressurreição futura. Percorrendo o cemitério, o caminho principal sobe suavemente, ladeando a colina. À medida que se avança, o cemitério fica cada vez mais cheio, também mais desorganizado, e o arqueólogo conta-nos a história. Repara neste jazigo. Estão aqui as cinzas dos antepassados, dedicadas a várias divindades, até que, em determinado momento, em vez de uma ânfora aparece esta caixa maior, com uma oração a Cristo, e daí para a frente acabaram-se as ânforas. Ficámos a saber em que data a família se converteu. Aquele cemitério é um documento vivo das conversões, porque se pode acompanhar a genealogia das famílias, os cruzamentos e as amizades. E, por vezes, as marcas gloriosas do martírio sofrido pela fé.

O caminho é cada vez mais tortuoso e o cemitério cada vez mais desarrumado, porque as famílias que se convertiam acolhiam no seu jazigo gente de fora. A acumulação cresce e os corpos invadem as ruas. Porque é que as pessoas queriam ser enterradas exactamente «ali»?!

O caso que me parece mais estranho é um corpo de mulher, fora de sítio, sem a protecção de um tecto, a pouca distância do foco deste cemitério. Explicam-me o que aconteceu. O Imperador atreveu-se àquilo a que só um imperador se podia atrever, a profanar o cemitério romano (crime sujeito a pena de morte!) para construir uma igreja, centrada no tal foco de atracção, que revolucionou e desorganizou o cemitério. Por ordem imperial, unidades do exército ocuparam a colina e só deixavam entrar os operários. Durante as obras de cobrir o cemitério de terra, para nivelar o terreno, morreu a mulher de um operário e este homem convenceu os soldados a deixarem-no colocar o corpo dela ali, no último momento.

A história longa da basílica sobrepôs construções sobre construções, tapando as obras mais antigas. Para saber o que estava por baixo, ficaram documentos a atestar que a origem mais remota era um pequeno cubículo, com os restos mortais de S. Pedro, martirizado no circo de Nero, no vale próximo da colina vaticana. Como seriam exactamente esse cubículo, o pequeno alpendre, o muro vermelho e o seu contraforte?

Pouco depois de Pio XII ser eleito, em 1939, começou a escavar-se até ao nível da rocha original. Foi-se desenterrando o tal cemitério, cada vez mais confuso à medida que se aproximava da vertical da cúpula de S. Pedro, que é a vertical do altar papal, que é a vertical de todos os sucessivos altares que estão por baixo, rigorosamente alinhados por essa exacta vertical para onde tudo convergia. Ali, dentro de um cubículo, sob um pequeno alpendre, junto a um muro vermelho com um contraforte, estavam uns ossos envolvidos em tecido de púrpura e ouro, as cores-insígnia do imperador. Havia fragmentos de todos os ossos de um só indivíduo, ancião, de raça judia, à excepção dos ossos dos pés.

Os eruditos monsenhores que supervisionaram as escavações não sabiam o suficiente para perceber o que tinham encontrado. Foi a jovem arqueóloga, Margherita Guarducci que decifrou os gatafunhos das paredes e compreendeu. Entre as frases, escritas à mão no muro, com invocações a Cristo, uma delas dizia, em grego: «Pedro está aqui».

Não existe nenhum osso dos pés provavelmente porque o crucificaram de cabeça para baixo e lhe cortaram os pés ao retirar o cadáver. Foi esse corpo, sem pés, que os primeiros cristãos sepultaram com devoção, no preciso lugar em que os textos antigos diziam que ele estava. Foram nove fragmentos desse corpo de Pedro que Francisco ofereceu ao Patriarca de Constantinopla.

Que Pedro, o «Rocha», como Jesus lhe chamava, nos alcance a unidade da Igreja.

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