Um rasgo de majestade no CISTERMÚSICA

José Alberto Vasco
Escritor

Não sendo muito dedicado a provérbios, não deixo de os utilizar quando sinto que se harmonizam com qualquer situação, nomeadamente quando escrutino a programação de festivais de música, conduta que me exige sempre uma observação ponderada que, embora timbrada pelo gosto e pela experiência, me conduz geralmente a uma análise objetivamente mais fundamentada. Logicamente que o provérbio em causa é neste caso o que evidencia que quantidade não é qualidade, preceito que usualmente tento consolidar, não vá o diabo tecê-las e surjam surpresas embaraçosas.
Ajusta-se este enquadramento à programação da edição deste ano do Cistermúsica, na qual, logo à primeira observação, sobressaía a presença no festival e uma atuação em Alcobaça de um dos mais celebrados e significativos ensembles franceses de música barroca, o Le Poème Harmonique, fundado em 1997 pelo premiado alaudista francês Vincent Dumestre, ainda hoje seu irrepreensível diretor musical. O programa desta sua atuação no Festival de Música de Alcobaça anunciava focar-se em música da época do jovem Luís XIV, centrando-se na produção musical de compositores franceses e italianos dos séculos XVII e XVIII, época de plena pujança criativa da música barroca e de suas determinantes vedetas como Lully e Charpentier, bem como de Francesco Cavalli, vulto italiano cuja insinuante música operática prevaleceu na segunda parte deste concerto, entusiasmando especialmente o público presente, que não lhe regateou admiração e aplausos, também por força da irresistível e versada prestação em palco da aliciante mezzo-soprano Éva Zaïcik, que acabaria por ser a estrela mais reluzente de um fantástico concerto em que nada falhou e em que tudo correu celestialmente, pois foi perante uma genuína constelação que nessa tarde estivemos na Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça. E se o canto foi de excelência e encanto o mesmo poderemos dizer da função instrumental, com Vincent Dumestre e os seus pares a fazerem inteira justiça ao período histórico em que pela primeira vez música e instrumento estiveram em perfeita igualdade e a instrumentação atingiu a sua maturidade. Muito bom mesmo, autêntica poesia em forma de música, irradiando arte e felicidade num concerto tão feliz que também brilhou pela ausência de telemóveis a ofender a visão e o encanto numa sala em que o papel do século XX foi o de aparecer transformado em canção de amor num encore absolutamente inesquecível.

José Alberto Vasco
Escritor

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