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Ocupação é segredo de longevidade

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Dono de uma habilidade que convida ao detalhe, assim se descreve o artesão Abílio Miguel, natural da Cela Nova que, aos 68 anos, na sua casa na Póvoa, em Alcobaça se entretém a produzir miniaturas em madeira que impressionam o mais exigente dos observadores. É há mais de 20 anos, com paixão, que se ocupa neste ofício meticuloso, colecionando perto de uma centena de peças, feitas pelas suas mãos. Grande parte são representações de carroças, que vão desde as mais trabalhadas às mais simples, onde não faltam os minúsculos pinos que fazem o encaixe, resultado de madeiras que juntou da sua profissão, polidor de móveis. “Faço tudo a olho, os detalhes estão todos na minha memória; para fazer uma peça, recordo-me e vou reproduzindo, com a ajuda da navalha, formões, martelo e lixas, as minhas fiéis e indispensáveis ferramentas”, explica, contando que não utiliza pregos nem cola, só parafusos, e que usa, como matéria-prima, madeira exótica ou pinho tratado.  Além da memória fotográfica, a paciência e a precisão são grandes aliadas do artesão durante o processo de criação. Um dos seus trabalhos mais antigos foi há 21 anos, uma carroça, maior que as restantes e que ocupa um lugar de destaque na oficina-museu. Lugar revestido de outras curiosidades, como peças que a natureza deu forma, como uma bengala, e que Abílio poliu, envernizou e guardou, molduras com dizeres, uma colecção de serras e tantas outras curiosidades. “Faço-o para me distrair, ainda mais agora que estou sozinho”, vai confessando, já que a esposa, doente de Alzheimer, está desde abril de 2016 no Centro Cénico da Cela. “Eu gosto e quero continuar a criar enquanto a idade me permitir”, vai dizendo. Idade que parece não passar por ele talvez muito por culpa desta paixão.

 

 

O seu dia-a dia é calmo, passado entre os seus afazeres de casa e a costura, na companhia do marido e dos animais de companhia. Lisete Esperança, de 62 anos, ocupa o tempo na sua casa na Cumeira, na fronteira entre Porto de Mós e Aljubarrota, entre as agulhas, os panos e as linhas. Das suas mãos, quase de olhos fechados, literalmente, já que a diabetes lhe tem roubado a visão, nascem lindas peças de utilidade, que vão desde aventais, panos de cozinha, pegas e fundos para tachos e panelas, peúgas de lã, ornamentações em crochés para cestos do pão, toalhas de mesa, naperons e tudo o que a imaginação e o talento lhe permitir executar, tal como umas bonecas de pano que mostra e se destinam às suas sobrinhas. Mas não foi esta a sua profissão. Como relata, “a paixão pela costura nasceu dentro de mim, mas o meu pai morreu quando era pequena e tive de ir trabalhar”. Dos 13 aos 21 anos, trabalhou numa fábrica onde se faziam malhas. Mais tarde, empregou-se numa fábrica de louça, onde foi encarregada de armazém, durante 14 anos. Esta arte de dar forma aos trapos e vida às linhas aprendeu fazendo. Desde os tempos de solteira, “comprava as revistas e ia ensaiando”, explica, exemplificando como faz o corte por exemplo de um avental, com a ajuda de um molde. “É muito simples”, vai dizendo, acrescentando que ” uma peça, por exemplo, umas botinhas de lã, demoram cerca de duas a três horas a estarem prontas”. E tal não é a graciosidade e talento de Lisete que até tem procura para os trabalhos que faz, a que soma alguns arranjos de costura, que só aceita pelo gosto de estar ocupada. E é neste estar ocupada que teima, apesar dos problemas de saúde, porque a sua atividade manual a faz sentir viva e feliz.

 

 

Fazer cestos é uma arte que, aos 83 anos, Manuel Botilheiro ainda sabe de cor. Sentado num pequeno banquinho de madeira, na sua moradia na Vestiaria, com a sua esposa Luísa Rosado, de 85 anos, a fazer-lhe companhia, o canastreiro, que conhece o ofício há mais de 60 anos, começou a trabalhar nesta arte aos 14. “Aprendi com um mestre em Marvão, Portalegre, onde nasci”. Uma ocupação que o fez vir para Alcobaça trabalhar, “já que na altura pagavam bem”. Primeiro, recorda, “estive numa oficina na rua Frei Fortunato e depois no Vimeiro”. Mais tarde, a vida obrigou-o a procurar trabalho noutras paragens. França foi o destino, onde esteve  durante 30 anos. Ali Manuel Botelheiro passou por uma fábrica de fazer camas e assentos para carros, trabalhou na construção civil e numa fábrica de farinhas. Mas a cestaria foi sempre o que mais o cativou e que foi fazendo, mesmo em França, nas horas vagas. “Como vivia no campo, tinha oportunidade de cortar varas de castanheiro, material que sempre utilizou para empalhar garrafões, fazer canastras, ou cestos para a fruta, para o pão, com ou sem arcos”, diz explicando que o castanheiro é um material muito maleável, mas havendo diferenças. “Castanheiro que apanha sol é melhor”, sublinha. Foi já depois de reformado, perto dos 70 anos, que regressou a Portugal. Desta arte que tanto gosta, que ainda vai fazendo e que sempre que pode dá a conhecer, como na feira de S. Bernardo, em Alcobaça, onde está presente todos os anos, diz ser preciso tempo e paciência. “Mas é um trabalho tão bonito”, sublinha, a par da tristeza pela falta de seguidores. “Estou para aqui sozinho, não há quem queira aprender”, desabafa Manuel Botelheiro, em defesa do ofício que tanto ama e que vai continuar a fazer enquanto puder.

 

 

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