A guerra colonial (1961-1974). O homem e o seu contexto.

Carlos Araújo
Professor no Colégio Nossa Senhora de Fátima – Leiria

A guerra colonial (1961-1974) e a emigração da década de 60 provocaram uma sangria entre as novas gerações. Na verdade, a persistente falta de liberdade de expressão e informação na sociedade, o peso da guerra e das suas sequelas, contribuíram também para gerar e alargar uma outra consciência social e política no seio de sectores do catolicismo português.
A revolução do 25 de Abril de 1974 e o período que se lhe seguiu trouxeram, inevitavelmente, profundas consequências para o país. O Natal de 1975 foi um momento importante da Revolução, no que diz respeito ao político e ao cristão. As mensagens natalícias, políticas e religiosas, nessa quadra apelam para a paz e a pacificação da conjuntura. O momento foi vivido como uma pausa política também ela favorável à reflexão sobre o passado recente e à análise criadora e prospetiva, como oportunidade de retomar o caminho da construção de um país novo onde as afirmações de democracia não vivam em permanente divórcio com os atos democráticos. O Presidente da República, Francisco da Costa Gomes, dizia que esse devia ser um tempo de reflexão, um tempo de meditação, um tempo de autocrítica ou de exame de consciência, de forma a tornar-se o caminho da verdade, que, levando o homem a procurar compreender-se a si mesmo, o levasse a compreender os outros.
Mais tarde, com o 25 de novembro de 1975, o país parece entrar numa fase de acalmia e de clarificação política. Tornam-se assim mais encorajadores os desejos de uma consolidação da democracia. É tão grande o desejo de paz, que então se sente, que o próprio Paulo VI, na Populorum Progessio de 1967, dá ao desenvolvimento o novo nome de paz. Também nesta mesma linha, o Episcopado Português dirigiu uma longa mensagem a todos os portugueses que desejam para a nossa pátria um futuro de justiça, de prosperidade e de paz. O Natal de Jesus traduz o mais profundo sentido da dignidade da pessoa e dá novo fundamento à fraternidade entre os homens, como fermento cujo dinamismo de paz e de concórdia atua nos corações, apesar dos egoísmos que os levam, tantas vezes a dilacerarem-se uns aos outros. Portanto, a busca da reconciliação e da paz é especial responsabilidade dos cristãos. O amor dos homens, mesmo que estes sejam inimigos, e a paz da reconciliação entre irmãos, são pontos capitais da mensagem do Evangelho: irmãos em paz, paz em justiça.
O então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, indicava o Menino de Belém como sendo a mensagem de luz e de esperança, de redenção e de vida, de justiça, de amor e de paz, bem como a dimensão mais radical da fraternidade humana, que a todos solidariza. Por outro lado, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes afirmava que num cristianismo autêntico não há divindade sem humanidade, como não há homem cristão sem transcendentalidade ad imaginem Dei, que leva à abertura ao outro. Deparamos assim, que a dignidade humana, a paz, a concórdia, a fraternidade e o amor eram os temas recorrentes e presentes nas mensagens desse período pós 25 de abril. Assim, a democracia honesta respeita a dignidade da pessoa, faz crescer o homem, leva a uma sociedade mais humana, livre e fraterna. O ano de 1975 foi difícil: houve novas ameaças de guerra, cresceram os ódios, multiplicaram-se as vinganças, não progredindo assim, como era necessária, a edificação de uma sociedade nova, justa e fraterna. Desejava-se um novo ano com nova força para levar a cabo um trabalho de pacificação e concórdia na reconstrução nacional.
No primeiro dia do ano de 1976, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, baseando-se na exortação do Papa, convidava todos os homens fascinados pelo ideal da fraternidade universal ou desiludidos e céticos a acreditar na possibilidade de relações de equilíbrio, de justiça e colaboração. Também o bispo do Porto apresentava Cristo na ótica da paz, tendo Ele feito do pluralismo humano, dos muros de separação e dos legalismos discriminatórios uma unidade superior, fundando em Si mesmo um novo homem artífice da paz. Segundo o Papa Paulo VI, há uma necessidade de sermos um pouco mais cristãos, para levar este mundo a humanizar-se em resposta ao projeto divino. O cristão é o homem da Esperança teologal, ponto de convergência da Fé com a Caridade. Portanto, o cristianismo deve representar um desafio à construção de uma sociedade mais fraterna.

Carlos Araújo
Professor no Colégio Nossa Senhora de Fátima – Leiria

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