Abril, Ontem e Hoje

Afonso Luís
Bancário aposentado

Há 47 anos, na noite de 24 para 25 de Abril, saí de Turquel, rumo a Lisboa, passava muito da meia noite. Liguei o rádio do carro e sintonizei a Rádio Renascença. Às tantas, ouvi a Grândola Vila Morena. Longe estava eu de pensar que se tratava de uma “senha” fundamental para o início do Movimento dos Capitães. Deitei-me já tarde, na noite, obviamente, e antes das sete da manhã o telefone de casa tocou. Era o meu amigo e meu diretor, Santana: “Ó Delgado Luís, ligue o Rádio Clube Português. A revolução está na rua, hoje não vamos trabalhar”.
Era o fim do chamado Estado Novo. Como nunca gostei de ditaduras, senti, verdadeiramente, o “cheiro”, o significado da palavra Liberdade. Como sabemos, este dia tem vindo a ser comemorado anualmente, e este ano apeteceu-me fazer uma análise às comemorações. Começando pelo discurso do Presidente da República: um autêntico manual de pedagogia histórica, que muitos deveriam estudar. Desde logo, alguns deputados da Assembleia da República cujas apreciações, na maioria dos casos, pareceram feitas por alunos ignorantes. Houve até dois deles que, não se sabendo situar no tempo, vomitaram peçonha e fizeram críticas a completo despropósito. Nestas situações, costumo evitar uma visita às redes sociais, pois é frequente ver ali opiniões tolas, na linha daqueles dois deputados. Opiniões do género: “O país está cada vez pior”; “os políticos enchem os bolsos”; “a corrupção cada dia alastra mais”… e por aí fora. Ora, será bom lembrarmo-nos do que acontecia antes do 25 de Abril de 1974: a corrupção, sendo muita, era abafada, e quem porventura a apontasse, seria preso; analfabetismo, uma chaga; mortalidade infantil, média altíssima; assistência na doença, uma miragem. Lembro, a este propósito, que o meu pai faleceu após um internamento de meses no Hospital de Santa Maria. Pois tivemos de pagar uma conta elevada, e tanto eu como os meus irmãos fomos forçados a recorrer a um crédito bancário. Depois, foi a minha mãe, com uma doença grave, que levámos a todos os hospitais de Lisboa e não encontrámos vagas. Valeu-nos a “cunha” de uma médica conhecida, que a internou no Hospital de Oncologia, depois de uma espera de três semanas.
Isto era Ontem. Hoje, há quem ouse dizer que Portugal está na cauda da civilização. Se a ignorância não sabe discernir entre o passado e o presente, estude o discurso do Presidente Marcelo.

Afonso Luís
Bancário aposentado

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