Opinião

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Extraordinários

Neste 2020, em cada edição, uma pessoa extraordinária em algum aspeto da sua vida, com ligação à nossa região.

Em vésperas do Dia dos Namorados, recordo a cena de amor mais bela que vi. Não no cinema, mas na vida real.

Nos anos 50, pediram a Maria das Dores e João Vinagre para acomodar a minha mãe, jovem professora na Benedita. Cresci a ouvir a admiração que a minha mãe tinha pela “Sra. D. Chica”, como lhe chamavam, e pelo seu marido. A generosidade do casal, com cinco filhos, em recebê-la. A inteligência emocional dela ilustrada, por exemplo, no comentário e um piscar de olhos: “Não sei se a senhora gosta; como os meus filhos não gostam de massa, compro esta que é massa de arroz”. A rotina infalível dele que, antes de se meter no carro, vinha a casa rezar à Nossa Senhora que tinham na entrada. As confidências dela, cuja lida começava muito cedo e acabava tarde: “Minha senhora, eu cada vez gosto mais do meu marido” ou “Toda a vida rezei a Santo António para me casar com um homem que me deixasse dar aos pobres à minha vontade”. E regozijava-se em dar, a quem vinha pedir, pão com a carne que tinha à mesa e, só quando esta acabava, servia marmelada, etc. A resposta sábia dele ao comentário da minha mãe quanto a muitas missas pelo presidente Carmona e talvez nenhuma por um pobre: “As contas lá em cima fazem-se doutra maneira”.

Foi na visita das 19h00. Hospital de Alcobaça. Muitos anos mais tarde. Ele já muito doente. Ela contava que a traziam sempre à visita da tarde e, por vezes, como naquele dia, também à noite. 19h30. Veio o segurança, fim da visita, fui dizê-lo à Sra. D. Chica. Quando me aproximei, ouvi-a dizer baixinho ao marido – que já não abria os olhos, dobrado, arquejante, sem reação – com a voz mais doce deste mundo: “Ai, Zito, estas meias horas são tão curtas”.

Mais tarde, quando ela também partiu, impressionou o funeral ímpar: uma família reconhecida e serena que partilhava momentos de humor e amor de uma mãe, de pais… extraordinários.

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