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Francisco e Bento XVI publicam um livro em parceria

Os autores são Papa Francisco e Bento XVI, o título é “Não façam mal a nenhum destes pequeninos. A voz de Pedro contra a pedofilia”. A editora italiana Cantagalli anunciou traduções em espanhol, alemão, inglês, albanês e saiu esta semana a tradução portuguesa, editada pela Lucerna.

Embora a incidência da pedofilia varie muito entre países e dioceses, é um problema grave na Igreja porque atenta contra princípios fundamentais. O número de casos entre o clero é escasso em comparação com a média da sociedade, no entanto, o crime de quem deveria dar um testemunho cristão é mais grave e a situação é ainda mais triste quando alguém se infiltrou no seminário com intenção de satisfazer estas tendências. Só um tremendo desprezo por Deus pôde fazer com que, nalgumas dioceses, estes comportamentos fossem tolerados. Mais do que uma fraqueza ocasional, a penetração da pedofilia denota um abandono colectivo de Deus, com uma inversão radical da mensagem cristã. Nalgum local particularmente degenerado, chegou-se a verificar no seminário uma certa concentração rapazes atraídos pelo vício, em vez de chamados por uma vocação à santidade.

Uma das análises mais profundas desta total subversão do sacerdócio, que substitui Deus pelo pecado, é o contributo que Bento XVI publicou no número de Abril da revista alemã Klerusblatt, escrito quando o Papa Francisco chamou a Roma os presidentes de todas as conferências episcopais do mundo, em Fevereiro de 2019, para reflectirem sobre a crise da fé e da Igreja patente nos abusos chocantes cometidos contra menores de idade. Bento XVI começa o artigo dizendo que contactou o Santo Padre antes de o publicar, mas vários jornais descreveram-no como um gesto de oposição, certamente porque não leram essa explicação inicial. Mas também porque não leram até ao fim: “No final das minhas reflexões, quero agradecer ao Papa Francisco tudo aquilo que faz para nos mostrar continuamente a luz de Deus que, também hoje, não empalideceu. Obrigado, Santo Padre!”. Como era óbvio, Francisco não se sentiu atacado e o primeiro capítulo do livro que acaba de publicar em parceria com Bento XVI é o referido artigo.

É surpreendente que os meios de comunicação se ocupem de ataques inexistentes e de notícias irrelevantes, como o elevador que se avariou quando Francisco se dirigia para uma audiência, enquanto ignoram o primeiro livro escrito em parceria por um Papa em exercício (Francisco) e pelo anterior (Bento XVI). Não foi só a generalidade da imprensa portuguesa que silenciou o livro, também a de língua inglesa, francesa, alemã, espanhola… Nem se deram ao trabalho de discordar, ignoraram simplesmente. Pelo contrário, o livro é interessante e a introdução, escrita por Federico Lombardi, S.J., porta-voz de Bento XVI e depois de Francisco, valoriza-o ainda mais.

Há poucos dias, já depois de lançada a versão italiana do livro, Bento XVI observava que a palavra Deus não aparece uma única vez na generalidade das críticas que lhe fizeram. “O facto de (…) ignorar o ponto central da minha argumentação, tal como a generalidade das reacções de que tive conhecimento, torna patente a gravidade de uma situação em que a palavra Deus parece muitas vezes posta de lado pela teologia”. (Resposta de Bento XVI intitulada “68 und der Missbrauch: Antwort auf Birgit Aschmann” – 68 e os abusos: resposta a Birgit Aschmann, publicado no número de Setembro de 2019 da Herder Korrespondenz).

As relações estatísticas apontam para um padrão que pode sugerir uma pré-disposição de quem comete abusos – por exemplo, os abusadores são homens e as vítimas são sobretudo rapazes –, mas o livro não aborda este tema. O ponto em que ambos os autores insistem é em não admitir no seminário quem não observa a doutrina da Igreja neste ponto. Por exemplo, o terceiro capítulo do livro, que é o discurso conclusivo do Papa Francisco aos Presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, reunidos em Roma para tratar da pedofilia, é claro: É preciso seleccionar os candidatos ao sacerdócio “visando principalmente excluir as personalidades problemáticas, (…) oferecendo um caminho de formação equilibrado para os candidatos idóneos, tendente à santidade e englobando a virtude da castidade. Na Encíclica “Sacerdotalis cælibatus” n.º 64, São Paulo VI escreveu: “Uma vida tão inteira e amavelmente dedicada, no interior e no exterior, como a do sacerdote celibatário, exclui, de facto, candidatos com insuficiente equilíbrio psicofísico e moral. Não se deve pretender que a graça supra o que falta à natureza”“.

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