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Histórias com Vida

Joaquim Nunes

Em passado recente, numa ida às compras com a minha esposa, fui-me sentar num banco junto às “caixas” do supermercado (do lado de fora). Já lá estava um “rapaz” com o aspeto de ser do meu tempo e, depois de pedir licença, instalei-me para esperar sentado enquanto lia o jornal. Joaquim Pinheiro Nunes, também conhecido por “Francês”, da Póvoa, que nunca tinha visto anteriormente, meteu conversa e conseguiu deixar-me sem palavras:
Há cerca de dois anos, à saída daquele supermercado, tinha sido abordado por um jovem e assaltado “enquanto o diabo esfrega um olho”. Mas, pior do que isso, o jovem que o assaltou atacou-o com gás mostarda. Agarrou-se à cara e sentiu que lhe metiam uma mão no bolso e que o roubavam. Tinha acabado de levantar 40 euros numa caixa do multibanco. Quando o ajudaram já não via nada. Levaram-no ao hospital mais próximo e começou aí um “calvário”, que dura até hoje. E que o vai acompanhar até ao fim dos seus dias. O gás mostarda queimou-lhe as pupilas dos dois olhos e as lesões que daí resultaram não são operáveis. Desde então só vê sombras e tem que ser ajudado para se deslocar a qualquer lado.
Com 80 anos vive com a esposa, da mesma idade. Tiveram três filhos, dois rapazes e uma rapariga, mas só a filha vive perto. “Os meus filhos não querem saber de nós. Nem sei onde vivem”, desabafa.
“Quando é preciso vimos às compras com um taxista, que nos transporta e me dá uma mão para me deslocar”, explica. Para se ocupar, sai de casa com a ajuda de uma bengala e vai até um banco do jardim onde “os amigos vão aparecendo e… vamos passando o tempo”.
Foi empregado dos “Capristanos” como cobrador e, “a certa altura da vida” emigrou para França. “Trabalhei muito mas ganhei umas massas; quando regressei à terra e pensei que ia gozar uma reforma sossegada mas os filhos descarrilaram”.
Já voltei ao supermercado. Não me consegui sentar naquele banco. Só via o “francês”!

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