Opinião

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Missa do Galo na Benedita em 1916

Faz agora cem anos e já cá não está que me contou, em 1970, esta comovente história.
A poeira do tempo apagou alguns detalhes da narrativa, mas esse facto não é motivo para não a trazer a público.
Nessa noite de 24 de dezembro de 1916, um domingo, a secular Igreja Velha da Benedita, estava cheia de novos, velhos e crianças, vestidos com as melhores roupas que tinham. Por maus caminhos, de burro, de carroça, ou a pé, vindos da borda da Serra, do Chamiço, da Ribafria ou dos Freires, todos lá estavam.
No meio de tanta gente, garbosamente vestidos com fardas militares, encontravam-se o soldado José Lopes do Corpo de Artilharia Pesada, o 1º cabo-
-enfermeiro Manuel da Silva e o soldado Silvino Rodrigues Serrazina, do 3º esquadrão do Regimento de Cavalaria nº2, sediado na Calçada da Ajuda, em Lisboa. Tinham vindo de Tancos, das manobras militares, onde conheceram um nabantino famoso, o general José Tamagnini. Faltavam trinta e poucos dias para embarcarem para Brest. Os horrores da guerra, em França, esperavam por eles.
O celebrante era o pároco da Benedita, nomeado nesse ano, o padre Manoel Canastreiro, o chamado Padre Doutor por ter estudado na Universidade Gregoriana de Roma, Direito Canónico, Filosofia e Teologia. Os três beneditenses comoveram-se quando o sacerdote, no final da homilia, pediu ao Menino Jesus que os protegesse.
Antes de saírem da igreja, passaram pelo mal iluminado mas poético e singelo presépio e ficaram a olhar demoradamente as velhas e modestas figuras que pareciam saídas das narrativas de Júlio Dinis.
Na missa do Galo, após o regresso, a 24 de dezembro de 1919, sãos e salvos, desta vez com os seus fatos dos dias de festa, voltaram a recolher-se em silêncio, junto do mesmo presépio. Agradeceram tamanha bênção e o Menino Jesus, doce, terno e puro como que sorria para o Silvino, o José e Manuel.

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