O Mariano da Ribafria

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

Esta época do ano traz-me sempre à memória a figura do Mariano, talvez por causa da nostalgia do outono.

Dizem-me que o seu verdadeiro nome era Joaquim Marques Ladeira, mas ninguém o conhecia por esse nome. Todos lhe chamavam “O Mariano”. Era natural da Ribafria.

Em jovem e já homem adulto, trabalhou duro no campo: cavou “à manta”, apanhou azeitona, semeou trigo. O tempo não apagou da minha lembrança a sua figura.

Infelizmente, sei muito pouco dos seus dados pessoais. Morreu nos fins dos anos sessenta do século passado. Fui um dia visitá-lo, já doente à Ribafria, quando o fim já se aproximava. A imagem que dele guardo é a de um homem vigoroso, alto, sério, trabalhador e de uma simplicidade quase celestial. O Joaquim Mariano tinha um subtil sentido de humor. Era, posso dizê-lo, um homem alegre, astuto, austero, tranquilo, firme e educado, na sua ruralidade. Era, à sua maneira, um homem doce.

Aceitava a velhice com uma serenidade impressionante. Viveu num tempo em que o mundo não era tão complexo como o de hoje, em que as estações eram bem definidas, terminavam de súbito e voltavam sempre no tempo certo. Era cúmplice da meteorologia. Nunca resmungava por causa do calor, do frio ou da chuva. Não sabia nada de equinócios nem de solstícios, mas tudo sobre o mundo rural. Era um bom capataz. Levava gente para a vindima, ano após ano, para terras do Cartaxo: Maçussa, e Ereira. Vinha da Ribafria a pé, naquele passo cadenciado e ritmado, sempre com o seu boné e um cajado.

Tinha um conhecimento empírico, mas profundo, das questões da agricultura, um saber feito da experiência que a vida lhe tinha dado: sabia de cor a altura das sementeiras, das luas, das geadas, do vento suão e da cultura de sequeiro. Lembro-me, quando em 1961, num inverno frio, ainda o sol não tinha nascido, de ouvir o som de um búzio no centro da Benedita. Era um sinal para reunir o pessoal que depois seguia para os olivais da “borda da serra”. Era o Mariano que o tocava. Vi-o uma vez numa matança do porco, fazer todo o trabalho da “desmancha”, sozinho, com uma habilidade e rapidez impressionantes.

Passaram tantos anos, mas um dia destes, senti uma grande nostalgia daquele ser humano que tratava as crianças com uma ternura enorme. Por isso, pedi ao artista plástico Zé Estrela que, tendo por base a única, velha e gasta fotografia que dele tenho, me fizesse um desenho do Mariano. Ele aqui está. Guardo-o religiosamente.

O Mariano era um símbolo de uma Benedita agrícola, há muito desaparecida. Este texto não é passadista, nem saudosista, mas apenas – e isso é o mais importante – uma pequena peça do meu álbum de recordações.

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

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