Uma porta que não era porta

José Maria André
Professor do I. S. Técnico

Cristo entregou a Pedro um poder divino e, ocasionalmente, os Papas exercem-no.
— «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu». Que fazer, com estas palavras infinitamente poderosas? A imaginação dos Papas concretizou-se de formas diversas ao longo dos séculos, inventando maneiras de nos aproximar Deus. No ano 1300, o Papa Bonifácio VIII lembrou-se de convidar todo o mundo à peregrinação e ao arrependimento, oferecendo o perdão de todos os pecados. A ideia não era completamente nova, porque desde sempre a Igreja usara o seu poder para perdoar os pecados, mas não era habitual. Em 1216, o Papa tinha concedido uma indulgência plenária a pedido de S. Francisco de Assis e, em 1294, o Papa Celestino promovera um perdão semelhante em Aquila. Além disso, o jubileu tinha antecedentes bíblicos, descritos no Livro do Levítico. Apesar de tudo, a ideia de Bonifácio VIII tinha muitos aspectos inéditos. Além disso, surgiu inesperadamente. No início de 1300, o Pontífice apresentou a proposta aos cardeais (na época havia muito poucos e praticamente todos viviam em Roma), eles concordaram e rapidamente a decisão foi anunciada universalmente, propondo-se que a iniciativa fosse repetida cada 100 anos. Uma multidão incontável, vinda de todos os países, peregrinou para Roma, confiada no poder do Papa. Os relatos falam de filas imensas, misturando nobres e plebeus, famílias inteiras, crianças e adultos. O afluxo foi tão grande, que tiveram de derrubar um troço das muralhas da cidade para abrir uma passagem nova. Como se esgotaram os víveres, quem trouxesse comida não pagava imposto e, ao longo do ano foram-se acrescentando cada vez mais facilidades. Aquela enchente, que ninguém previa, ficou na história da literatura no célebre livro «A Divina Comédia» de Dante Alighieri, que foi um dos peregrinos do jubileu de 1300: com sentido de humor, para descrever a penosa marcha dos condenados no Inferno, compara-a com a fila interminável dos peregrinos do jubileu!
A inventiva dos Papas mudou a periodicidade dos jubileus para 50 anos, para 33 anos, para 25 anos e acrescentou ocasiões especiais para convocar os cristãos a aproximarem-se da graça de Deus, a última das quais foi o Jubileu da Misericórdia em 2015-16, no actual pontificado. As primeiras peregrinações foram a Aquila, Assis, Santiago de Compostela, Loreto, Roma e a poucos outros santuários, mas, também neste aspecto, os Papas alargaram cada vez mais as possibilidades de participação no jubileu. Nos primeiros tempos, a Porta Santa, por onde se entrava para ganhar a indulgência do jubileu, era uma parede de tijolo que, depois de o Papa lhe dar três marteladas simbólicas, se derrubava e se voltava a reconstruir no final do ano. Pio XII mandou fazer dois painéis de bronze para tapar a entrada à noite durante os jubileus, e Paulo VI transformou esses painéis em portas, de modo que a cerimónia de abertura da porta deixou de incluir marteladas e tijolos. Cumprindo a tradição, com a maravilhosa bula «Spes non confundit» (a esperança é fiável) que acaba de publicar, o Papa Francisco anunciou o próximo jubileu. A partir do dia de Natal de 2024, podem ganhar-se indulgências magnânimas peregrinando e sendo generosos com Deus e com os outros. Um dos requisitos é arrepender-se dos pecados e pedir a Deus ajuda para não os voltar a cometer, confessando os pecados no Sacramento da Reconciliação.
Nesta bula extensa, verdadeiramente maravilhosa, ecoa, como há séculos, o poder divino. «O que ligares… será ligado; o que desligares… será desligado». Os Papas têm consciência desse poder imenso e usam-no, inventando formas novas de nos aproximar de Deus.

José Maria André
Professor do I. S. Técnico

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