A Benedita do século XVII no Registo Paroquial

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

Quem estiver menos atento, interrogar-se-á como é que um engenheiro se aventurou pelo mundo dos estudos de História Regional. A verdade é que João Vinagre tem uma sólida formação na área das Humanidades, já que frequentou, sucessivamente, os Seminários de Santarém, Almada e Olivais. É um dado adquirido que, a maioria esmagadora dos que passaram por esse triângulo de escolas católicas, é senhor de uma boa cultura clássica e geral. Quem se dedica, como é o caso, à pesquisa histórica, sabe que esse trabalho “não dá palco”, mas antes – e isso é o mais importante – deixa um trabalho para a posteridade. Deve ter sido um labor difícil, longo e solitário.

Escrever uma obra sobre a Benedita do século XVII não é tarefa fácil. João Vinagre não se limitou a abordar este tema específico e vai mais longe: faz o enquadramento histórico dessa época, na Europa, até ao importante Concílio de Trento. O autor “entra” na História de Portugal e recua no tempo. Destaco o capítulo “Alcobaça e Freguesias Limítrofes”. Começam depois “os pontos altos” da obra. Segue-se um trabalho minucioso e gigante de pesquisa sobre os batismos, casamentos e óbitos, acontecidos no século XVII, na paróquia da Benedita.

Reafirmam-se, nesta obra, informações bem curiosas que ficam, deste modo, perpetuadas por escrito, como o facto de o Bairro da Figueira ser, no século XVII, o local mais povoado da freguesia.

Os quadros sobre os apelidos deixam-nos alguns dados interessantes. Cito, por exemplo, os nomes e apelidos mais comuns, de famílias que batizavam os filhos na Benedita, entre 1635 e 1700: Francisco, Jorge, Rebelo, Marques, Reis, Lourenço, Antunes, Dias, João e Luís.

Também o número de casamentos e funerais, nesse período, permite tirar conclusões sobre a evolução populacional neste século.

Ao que nos é dado saber, no século XVII, nos registos paroquiais das freguesias rurais, nomeadamente nos registos de casamento, verificava-se a ausência de regras na adoção dos sobrenomes. Podia ser o apelido do pai ou da mãe ou, até, não coincidirem com os apelidos parentais. Não havia o chamado “quadro normativo”.

O autor caminha pelo mundo da onomástica e, neste caso específico, pelos nomes constantes dos documentos oficiais – os registos de batismo. Qualquer pessoa podia ter vários nomes: o nome por que é chamado, outro do meio familiar e, finalmente, a alcunha, realidade muito antiga nas terras beneditenses. Sem querer meter a “mão em seara alheia”, direi que este tema é interessantíssimo. Uma certeza temos nós: alguns destes apelidos vieram para a Benedita durante o tempo da Reconquista Cristã, trazidos por populações vindas do Norte do País e das zonas de Coimbra e Leiria, que aqui se fixaram.

O grande mérito deste trabalho é ter entrado num mundo difícil e pouco explorado. A Onomástica, concretamente a beneditense, pertence ao campo mais vasto da Linguística – neste caso, pelo estudo dos nomes.

Pelo exposto anteriormente, louvo o mérito do trabalho do Engenheiro João Vinagre. O texto tem rigor histórico e este é o maior elogio que se pode fazer a quem escreve sobre História. Vinagre baseia-se sempre em documentos e não entra no caminho fácil da «dedução», que nos leva à falácia!

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

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