“Aquilo que é”

Ana Caldeira
Diretora do jornal O ALCOA

A expressão “aquilo que é” é uma metáfora do país.

Há tempo, o nosso inestimável colaborador Afonso Luís escreveu n’O ALCOA sobre a inútil e agora omnipresente expressão “aquilo que é”. Perspicácia! Comecei a reparar e… a irritar-me com “aquilo que é” e suas derivações. Ouve-se continuamente na televisão em “aumentar aquilo que é o salário mínimo”, investigar “as causas daquilo que foi o acidente”, intervir “naquilo que é o SNS” para resolver “aqueles que são os seus problemas estruturais”. Não sei porquê: qualquer erro se propaga como incêndio com vento. Podem não «colar», por exemplo, as formas corretas “intervim” ou “interveio”, mas os erros contagiam-se como vírus, como na região o calamitoso “fomos-se embora” ou o moderno “muitas das vezes”. Voltando ao “aquilo que é”, para quê gastar tempo e saliva com esta expressão oca? É que “aquilo que é” é uma metáfora da nossa ineficácia. Palavras fúteis em intenções por concretizar, num país que “Faz que anda mas não anda; parece de brincadeira”. Faltando funcionários públicos em tantas áreas úteis, temos parte considerável a desenhar infindáveis processos burocráticos e outra a verificar o seu preenchimento. Processos não produtivos que não diminuem a corrupção, só bloqueiam empresas e indivíduos. E, assim, tudo se atrasa: a reforma da floresta, as consultas e cirurgias, a falta de professores, os apoios às empresas, a execução do PRR, os processos judiciais, o aeroporto, a ferrovia… Há tempos, uma aluna angolana que estudou desde pequena na Polónia, disse-me que achava Portugal muito parecido com… Angola: “aqui também tudo leva muito tempo a tratar; na Polónia… pontualidade e produtividade, tudo na hora até para as pessoas não faltarem ao trabalho”. Não, a Irlanda não nos ultrapassou só por falar inglês, nem os países de Leste só porque têm escolarização superior. “Aquilo que é” uma cultura entranhada de burocracia e a nossa resignação perante tal é que empatam, atrapalham, tolhem o país. Um círculo vicioso que me enche de pessimismo.

Ana Caldeira
Diretora do jornal O ALCOA

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