Cuidados a ter com as palavras

Afonso Luís
Bancário aposentado

Aquele velho conceito que nos indica que uma palavra que sai da boca é como uma pedra que sai da mão, isto é, já não volta atrás, nem sempre está presente naquilo que dizemos ou escrevemos. Vejamos alguns casos.

AFIRMAÇÕES CATEGÓRICAS: quantas vezes afirmamos categoricamente o que não é assim tão linear. Como exemplo, lembro um comentário do Padre Anselmo Borges, professor de filosofia em Coimbra, que dizia ninguém poder afirmar “Deus não existe”, do mesmo modo que ninguém pode afirmar “Deus existe”. O correto é dizer “acredito que Deus não existe” e “acredito que Deus existe”. PALAVRAS A REPENSAR: “sempre” e “nunca”. Será preferível afastarmo-nos de juízos absolutos que tanto nos agradam, porque a realidade é mais complexa, e por isso melhor será dizer “quase sempre” e “quase nunca”. Outra palavra com a qual deveremos ter cuidado é a palavra “nós”, que pressupõe desde logo uma palavra adversa, “eles”. Ora, o mundo dividido entre “nós e “eles” é um mundo centrado numa visão dualista, que não incentiva a solidariedade e o encontro. Se nos empenharmos mais em “nós” e proclamarmos menos a palavra “eles”, poderemos construir um mundo onde a palavra “esperança” tenha o seu lugar. Neste caso, e a propósito dos populismos de Trump e de Bolsonaro, escrevia Rui Tavares Guedes num dos últimos números da revista VISÃO, que esta é uma via que destrói os factos, propaga a mentira e a desinformação, e ajuda a que se vá cavando, à custa da propagação do ódio e da raiva, o fosso entre o “nós e “eles”. Por fim, a palavra COISA. Em vida do grande linguista Dr. José Pedro Machado, assisti, em Lisboa, a várias palestras suas de esclarecimento sobre a língua portuguesa. Um dia, este mestre dissertou sobre a palavra COISA, afirmando que se trata de uma palavra que parece dizer tudo e não diz nada, enfim, uma palavra a evitar. No entanto, às vezes tem o seu lugar, principalmente quando queremos realçar uma afirmação. Exemplos: que coisa importante aconteceu; que coisa feia tu fizeste.
Palavras leva-as o vento quando não são devidamente utilizadas.

Afonso Luís
Bancário aposentado

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