Memória

INUNDAÇÕES EM ALCOBAÇA NO SÉCULO XVIII (I) A “Grande cheia de 1772” nunca aconteceu

São tantos os erros que correm sobre este assunto que nos parece necessário restabelecer a verdade dos factos, de acordo com as regras elementares de toda a historiografia digna deste nome, que são, antes de mais nada, o criterioso estabelecimento das fontes, e, a seguir, a sua correta interpretação.
Houve, em Alcobaça, no século XVIII, três grandes cheias, todas três referidas, em finais do século, pelo cronista oficial do Mosteiro, Fr. Manuel de Figueiredo (1729-1793), historiador sério, sempre bem documentado, e cuja erudição em matéria alcobacense ainda hoje dificilmente se poderá superar.
A primeira destas grandes cheias teve lugar em 28 de outubro (dia de São Simão) de 1713, e foi logo relatada por Fr. Alberto de São José, cartorário-mor do Mosteiro (1); a segunda em 11 de dezembro de 1774, descrita, esta, pelo próprio Fr. Manuel de Figueiredo (2); e a terceira, na noite de 23 para 24 de fevereiro de 1788, também descrita por Fr. Manuel de Figueiredo (3).
É verdade que, no Catálogo das suas obras publicado em 1792, no ano anterior ao da sua morte, vem escrito: «Relação da cheia, que inundou Alcobaça na noite de 23 para 24 de fevereiro de 1774», mas o ano de 1774 é aqui lapso do autor, já doente (ou do seu amanuense, ou ainda do tipógrafo que compôs o texto), por 1788, como se pode facilmente verificar cotejando as duas versões originais da referida relação: a da Torre do Tombo (que publicámos neste jornal em 1994), e a da Biblioteca Nacional (códice 1487, f. 30-31), ambas perfeitamente concordes entre si.
Quanto à «grande cheia de 11 de novembro de 1772», tão abundantemente comentada, nas suas produções hidrológicas, por Pedro Tavares (que, curiosamente, nunca menciona as três ocorridas nos referidos anos de 1713, 1774 e 1788), não passa de uma invenção baseada num erro de Manuel Vieira Natividade, que nem sempre era muito rigoroso nas suas leituras e transcrições, como já demonstrámos noutro lugar, e que, num trabalho postumamente publicado pelo seu filho Joaquim em 1960, leu «novembro» em vez de «dezembro», e «1772» em vez de «1774» (4).

«Fatídica cheia»
Pequenas diferenças gráficas, é certo: um «No» em vez de um «De», e um 2 em vez de um 4, mas que fazem toda a diferença entre um erro e a verdade, e chegam a baralhar as pessoas menos preparadas, com as amplificações imaginativas do costume, cada contador de conto aumentando um ponto: «1772, em dia de S. Martinho a 11 de novembro…», «na fatídica cheia de 1772, por ironia [sic] em dia de S. Martinho…», escrevia assim, não há muito, Pedro Tavares (5). Quanto a Maria Augusta Trindade Ferreira, fala não só da «grande inundação de 1772», como também das «cheias de 1774», multiplicando-as (6)…
Ora, nada como ir às fontes originais, e aí, Fr. Manuel de Figueiredo e o Franciscano Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, ambos contemporâneos dos acontecimentos, são categóricos. Figueiredo, falando da cheia de 23 para 24 de fevereiro de 1788, escreve: «Esta foi a terceira vez que Alcobaça, neste século, foi alagada pelos rios que a cortam, e lhe causaram ruínas e grandes prejuízos» ; e, em nota: «A primeira em 28 de outubro de 1713; e a segunda em 11 de dezembro de 1774» (7). E Viterbo, evocando a de 1774: «Em a noite de 11 de dezembro de 1774, houve em Alcobaça uma inundação pasmosa, etc.» (8).
A estes dois testemunhos irrecusáveis, pode acrescentar-se o de outro Cisterciense, Fr. José de São Lourenço, então professor de grego no Colégio de Nossa Senhora da Conceição: num texto escrito em latim e intitulado Memoria ingentis pluviae (9), deixou, também ele, um vivo quadro desta segunda grande cheia, ou enxurrada, de 11 de dezembro de 1774, que, ao varrer a vila, permitiu incidentalmente fazer várias descobertas arqueológicas.
Resumindo e concluindo: em Alcobaça, no século XVIII, para além de pequenas cheias esporádicas de consequências limitadas, houve três grandes inundações verdadeiramente catastróficas: em 1713, em 1774 e em 1788. Não se conhecem outras, daquela importância, que a memória humana e a história tenham registado. Quanto à «grande», à «fatídica cheia de 1772, em dia de S. Martinho»(10), que, mercê de um erro de Manuel Vieira Natividade que seu filho Joaquim não soube corrigir, inunda agora os meios de comunicação social, os estabelecimentos de ensino e a própria Internet, essa cheia, «por ironia» (?), nunca aconteceu. (Continua.)

(1) AN/TT, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 475-475v.
(2) AN/TT, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 477v.
(3) Cf. Fr. Manuel de FIGUEIREDO, «Relação da cheia […]», AN/TT, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 478-478v; publ. por nós no jornal O Alcoa, nº 1826, de 17 de fevereiro de 1994, p. 12.
(4) Veja-se Mosteiro e Coutos de Alcobaça, ed. Joaquim Vieira NATIVIDADE, Alcobaça, 1960, p. 53, nota 3. – Mas o responsável do erro terá sido Manuel ou Joaquim ? O que nos leva a fazer esta pergunta, é que, já no seu opúsculo O Mosteiro de Alcobaça: Notas históricas, a Igreja, os Túmulos, o Mosteiro, publicado no Porto em 1929, Joaquim Vieira Natividade, na página 7, escrevia o seguinte: «O terramoto de 1755, e depois a grande inundação de 1772, causam em tôda a parte graves prejuizos…» (o sublinhado é nosso). Em 1929… O erro, portanto, já vinha de longe. Mas o que é curioso, é que Manuel Vieira NATIVIDADE, no seu livro O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), publicado em Coimbra em 1885, na pág. 4, cita Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo e indica a data exata da inundação de 1774: 11 de dezembro, data que repete na pág. 17: «1774 – A grande innundação que referimos no principio d’este capitulo»… E não fala em inundação em 1772… Afinal, de quem é a culpa ? Só se podia responder a esta pergunta indo consultar o manuscrito da obra póstuma de 1960.
(5) Cf. «Hidráulica», in Roteiro Cultural da Região de Alcobaça, Alcobaça, s. d. [2001], p. 53 e 92; e veja-se também p. 75, 83, 88, 90, 91, 93, 94 e 109…
(6) Cf. «Santa Maria de Alcobaça. Aliança entre a espiritualidade e o trabalho manual», in Cister e a Europa, Lisboa, 2007, p. 173.
(7) AN/TT, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 478.
(8) Veja-se Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram [1798], ed. Mário FIÚZA, Porto, 1983, vol. I, p. 324, s. v. «ALCOBAXA ou ALCOBACHA».
(9) BNP, códice Alcobaça 395, f. 3v.
(10) Pedro Tavares, «Hidráulica», passim.

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