INUNDAÇÕES EM ALCOBAÇA NO SÉCULO XVIII (II) A grande cheia de 28 de outubro de 1713

Publicamos hoje a notícia, inédita, redigida por Fr. Alberto de São José, cartorário-mor do Mosteiro de Alcobaça, relativa à grande cheia de 28 de outubro de 1713, que inundou parte da Vila e do Mosteiro, causando grandes estragos. Segue-se-lhe uma interessante lição espiritual, na mais pura tradição monástica.

Cheia notável (1)
(1) Aos 28 dias do mês de outubro de 1713, dia de São Simão, das dez horas para as onze do dia, indo a Comunidade para o Refeitório, começou o Rio Alcoa a encher, e o fez com tão grande excesso, que saindo a Comunidade do Refeitório, ou das graças, vindo para os Dormitórios (2), estava tão grande inundação de água, que o terreiro que fica para a parte da cerca, já tinha mais de seis palmos de altura (3); com que entrou pela Tulha, e levou todo o milho que nela estava, e a cevada, e umas pipas que tinham legumes, pelas portas que se lhe abriram com muito trabalho, para se evitar alguma ruína no Dormitório novo; e foi tão grande a inundação, que chegou a cobrir os canteiros da horta, e chegou à segunda rua; e arrombou o muro da cerca aonde estava o arco, até que chegou ao muro do Retiro, e passou por cima da ponte da porta da vinha, de tal sorte que tudo ia a nado por cima da ponte, até que a derrubou, levando-a toda, e a couraça que tinha da parte de cá, que pela fortaleza com que estava feita parecia impossível. E se viu aquela vizinhança da ponte, assim de uma [parte] como da outra, com muito perigo, porque entrou a cheia para algumas casas.
E sendo esta cheia tão grande, podia ser natural; mas pela brevidade com que veio, e buscando logo a Tulha, parece sobrenatural; porém, só Deus que o sabe. Eu só digo que se os Prelados forem caritativos com a pobreza, creio que nunca experimentarão semelhantes naufrágios; porque esta cheia deu muita perda a esta Casa; e só se livrou o trigo que estava na Tulha, e o mais cobriu a água com mais de seis palmos de água, o qual se mandou logo lavar todo, porque ficou embarrado; e que eu, sendo de setenta anos, e tendo desta Casa cinquenta e um, nunca tal vi, vendo nesta terra mais grandes cheias; mas esta foi com tal excesso, que só Deus sabe os porquês.
Porém, tinha acontecido, dois dias antes de vir esta cheia, vir a esta Casa um Peregrino estrangeiro, e pediu que se lhe desse uma esmola, pela fama que deste Mosteiro tinha, nos Reinos estranhos, do bem que [nele] se fazia aos pobres. Porém, o Celeireiro o remeteu à Cozinha, aonde se lhe deu uma tigela de caldo mal temperado, com alguma rala; e vendo o Peregrino o mal que o tratavam, tendo fama este Mosteiro do bem que [nele] se tratava a pobreza, se queixou, e disse que Deus lhes daria brevemente o pago, como se viu no dia assinalado; e assim parece mais castigo que natural a cheia que veio (4). (Continua.)

(1) À margem: «A maior cheia que se viu nesta Casa e nesta terra – anno de 1713.» E, mais abaixo, em letra diferente: «Vide outra maior a f. 477v.» Esta última nota refere-se à terceira cheia, a de 1788, cujo relato, por Fr. Manuel de Figueiredo, foi por nós publicado neste jornal em 1994 (nº 1826, de 17 de fevereiro, p. 12).
(2) Convém lembrar que, após o jantar (a que nós chamamos almoço), os monges costumavam, principalmente no verão, tomar algum descanso, já que estavam em pé desde as duas horas da manhã (e, nos domingos e dias de festa, uma hora antes), em que celebravam o primeiro ofício, o de Vigílias, vulgarmente chamado Matinas.
No seu opúsculo intitulado Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Roteiro (Lisboa-Mafra, 1987), Maria Augusta Lage Pablo da Trindade FERREIRA escreve, na página 50, que «os serviços religiosos […] começavam cerca das duas da manhã com as “ Matinas ”», o que é exato; porém, em trabalho mais recente, assevera que, «a partir do século XVI», passaram a levantar-se, no inverno, «às 5 horas e de verão à 6 horas» (cf. «Santa Maria de Alcobaça. Aliança entre a espiritualidade e o trabalho manual», in Cister e a Europa, Lisboa, 2007, p. 124). Que descoberta, sobrevinda no intervalo (entre 1987 e 2007), terá motivado semelhante alteração, desmentida por tudo o que sabemos da história do Mosteiro? Bastará referir aqui o que escrevia o marquês de Fronteira, ao lembrar uma visita ao Mosteiro, em agosto de 1824, acompanhado por Fr. Fortunato de São Boaventura: «Chegando próximo de Alcobaça, sentindo já os sinos que tocavam a matinas, disse-me o meu companheiro que era mais tarde do que pensava e que, pelo toque, devia ser perto da meia-noite» (Memórias do Marquês de Fronteira e d’Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, ditadas por êle próprio em 1861, Coimbra, 1928, p. 419).
(3) Mais de 1,20 m.
(4) Extraído de: Fr. Alberto de SÃO JOSÉ, Índice do Cartório de Alcobaça, Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 483-484. Leitura, transcrição, atualização ortográfica e notas pelo Prof. Gérard LEROUX.

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