INUNDAÇÕES EM ALCOBAÇA NO SÉCULO XVIII (III) Date et dabitur – Dai, e ser-vos-á dado

Na sequência do relato anterior (da grande inundação de 28 de outubro de 1713), Fr. Alberto de São José, cartorário-mor do Mosteiro, tirando a lição espiritual do acontecimento, refere um apólogo muito famoso, frequentemente mencionado na literatura monástica e bem conhecido dos medievistas (o próprio Lutero cita-o numa das suas obras): a história dos irmãos Date e Dabitur, através da qual se relembrava a imperiosa obrigação da caridade para com os hóspedes, peregrinos e passageiros, sob pena de castigo divino.

«A este intento se pode trazer aquele sucesso que sucedeu em um Mosteiro nosso de França, que tinha um Hospício dentro em si para agasalhar Peregrinos e Passageiros; e, sucedendo um Abade naquele Mosteiro que não era muito caritativo, mandou ao Porteiro do Mosteiro que não recebesse Peregrinos no Hospício, mandando-lho com obediência e com excomunhão. E sendo o Mosteiro muito rico, veio a tal estado que, para haver de se poder sustentar, se empenhou a prata que nele havia, porque as terras do Mosteiro não davam frutos.
Sucedeu, depois deste preceito do Abade, vir um Peregrino pedir que o quisessem acomodar; mas como o Porteiro tinha preceito para não receber Peregrinos, lhe negou a entrada; e, instando o Peregrino que não tinha onde se acomodasse, o Porteiro, vendo a sua razão e o seu semblante, o mandou entrar, e, querendo-lhe lavar os pés, na forma da Regra do nosso Padre São Bento, ele lho não quis consentir.
Contudo, o Porteiro o acomodou com a sua ração, e lhe fez cama no Hospício, e, antes que levasse as chaves ao Abade, esteve falando com o Peregrino, o qual lhe perguntou se era aquele Mosteiro rico; ao que o Porteiro lhe respondeu que fora muito rico, mas que agora estava muito pobre; ao que lhe replicou o Peregrino: «Pois não sabe a causa, Padre? Eu lha direi. Havia neste Mosteiro dois irmãos a que chamavam, um, Frei Date (1), e o outro, Frei Dabitur (2); botaram fora Frei Date, e Frei Dabitur se foi com ele.» Porém, o Porteiro não compreendeu este dito, porque não conheceu tais Irmãos no tal Mosteiro.
Indo o Porteiro no outro dia a buscar as chaves para abrir as portas e lançar fora o Peregrino, contudo, temendo que o Abade soubesse tinha agasalhado o Peregrino contra sua vontade, se lhe lançou aos pés e lhe disse que tinha acomodado um Peregrino no Hospício, e lhe disse o que ele lhe dissera; mas que ele nunca conhecera tais irmãos neste convento.
Mandou o Abade que fosse buscar o Peregrino, e, indo o Porteiro buscá-lo, achou as portas fechadas, e a cama feita, sem que se lhe bulisse, e não viu o Peregrino; e, tornado o Porteiro a ter com o Abade, lhe disse o que tinha sucedido. Vendo o Abade que isto era aviso do Céu, mandou ao Porteiro, com obediência e com excomunhão, que todos os Peregrinos que viessem os recebesse no Hospício, e logo o Mosteiro tornou ao seu antigo, o ser rico como dantes.
Com que convém muito, neste Mosteiro, usarem do irmão Date, para terem também o Dabitur, que quantas mais esmolas fazem, Deus acrescenta tudo, como se tem visto (3).»
(continua.)

 

(1) Date: dai, em latim.
(2) Dabitur: ser-vos-á dado. Alusão ao preceito evangélico: Date, et dabitur vobis; mensuram bonam, et confertam, et coagitatam, et superefluentem dabunt in sinum vestrum. Eadem quippe mensura qua mensi fueritis remetietur vobis (São Lucas 6, 38), «Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.»
(3) Extraído de: Fr. Alberto de S. JOSÉ, Índice do Cartório de Alcobaça, Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, Mosteiro de Alcobaça, livro 213, f. 483-484. Leitura, transcrição, atualização ortográfica e notas pelo Prof. Gérard LEROUX.

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