O Marquês e as fake news

Ana Caldeira
Diretora do jornal O ALCOA

“Um homem é tão poderoso na própria casa, que mesmo depois de morto são precisos quatro para o tirar de lá”.

Assim terá respondido Pombal ao embaixador espanhol face à ameaça de invasão. Na região, os resultados eleitorais confirmam-no: a maioria dos que estavam em funções manter-se-á. Já em Lisboa, os resultados lembraram-me um comentário televisivo: Medina era próximo do povo e Moedas pertencia à elite. Confirmei que era fake news: Medina é afinal trisneto do Conde de Castro, contrastando também pela carreira, toda por nomeação ou eleição partidária. De Carlos Moedas eu já sabia, por uma entrevista de há anos, que o pai era um jornalista alentejano pobre e que a falência do Diário do Alentejo, que fundou, o levou ao alcoolismo e à morte prematura. Moedas mantinha, porém, o pai, comunista convicto, como referência, mencionando um texto que este lhe dedicou num fim de ano, nas páginas desse jornal. Vale a pena ler e desejar que a premissa primeira de todos os eleitos seja servir o bem dos outros: “Olha, Carlos: depois de amanhã não é outro dia, (…) é um outro ano que começa (…). Depois de amanhã, Carlos, as coisas não deveriam estar como estão hoje, como decerto vão estar amanhã. Depois de amanhã, que é domingo, quando tu acordasses, quando acordassem todos os meninos, as coisas deveriam nascer diferentes. Não falo, está claro, das árvores, dos montes, dos rios, dos mares, das estrelas, da lua, do verde das searas, do cheiro dos aloendros e das estevas, muito menos da passarada chilreando de galho em galho. Não falo das coisas da Natureza, nem das outras coisas igualmente belas e puras que são os animais. Depois de amanhã, as coisas que deveriam amanhecer diferentes eram os homens. Depois de amanhã, Carlos, quando tu acordasses, nenhuma criança, tua vizinha, ou de muito longe, deveria ter fome ou frio nem os pais sem ganho suficiente de lhes dar pão. (…) Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um Mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham – mesmo os que nunca foram meninos. Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!”.

Ana Caldeira
Diretora do jornal O ALCOA

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