Memória

Padre Manuel Luís, o músico renovador

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Sobre a premente necessidade de renovação da música litúrgica, em meados do Século passado, escreveu o Padre Manuel Luís, em 1971: “Um campo invadido por incompetentes e aventureiros que, à custa da ingenuidade dos fiéis e da ignorância de alguns pastores, tem medrado e adquirido foros de cidadania”.

A vida
Nascido em Turquel, Alcobaça, a 8 de julho de 1926, Manuel Luís frequentou os seminários de Santarém, Almada e Olivais, e foi ordenado presbítero em 29 de junho de 1951. Dotado de superior inteligência, tinha uma saúde bastante débil. Entre outros males, sofria de epistaxe, tendo hemorragias longas e frequentes pelas fossas nasais. Numa ocasião, teve mesmo de interromper os estudos, no seminário, mas conseguindo, no ano seguinte, completar dois anos num só ano letivo. Desde muito cedo manifestou grande interesse e gosto pela música. Viria a frequentar, durante sete anos, o Instituto Pontifício de Música Sacra de Roma, onde foi diplomado em Canto Gregoriano e Composição de Música Sacra.
Regressado a Portugal, deu aulas no seminário dos Olivais e dirigiu o coro polifónico, coro este que tinha também o serviço litúrgico e musical da Sé Patriarcal, onde era pároco, na altura, seu tio, do mesmo nome, o Cónego Manuel Luís. Ele próprio viria a paroquiar a Sé, de 1969 a 1975, e a partir de 1975 ficou à frente da paróquia das Mercês, ainda em Lisboa, onde faleceu, com 55 anos de idade, a 5 de julho de 1981, no Hospital de Jesus, contíguo à igreja.
A obra
Manuel Luís recebeu uma sólida formação litúrgica no seminário dos Olivais, onde ainda se respirava a presença indelével do Reitor, Cónego Monsenhor Dr. Pereira dos Reis. Entretanto, nascia no centro da Europa um movimento a “cheirar” a concílio, aspirando a uma mais ativa participação das assembleias nas celebrações, Missa e outras relacionadas com os diversos tempos litúrgicos. Parecia sentir-se a necessidade de algo de novo para o reportório musical da liturgia. E esta necessidade, aliada ao desejo do artista de fazer nova música, levou Manuel Luís a lançar-se na composição de “Cânticos da Assembleia Cristã”, segundo a sua própria designação. Pode afirmar-se que a natureza o inspirava na criação musical, de tal forma que chegava a interromper bruscamente as aulas no seminário, para se isolar e escrever músicas que lhe brotavam bem lá de dentro .
Quando começou a compor ainda se mantinha o latim como língua litúrgica e, por essa razão, as suas composições acompanhavam a liturgia mas não se pode dizer que constituissem propriamente textos litúrgicos. Foram no entanto publicados alguns fascículos destinados à Missa, em honra de Nossa Senhora e outros que, embora se mantenham válidos, na sua maior parte, o autor preferia que não fossem distribuídos, pois os novos textos oficiais ofereciam uma maior proximidade a Deus. E Manuel Luís era um homem de profunda fé.
Ele pretendia que a música cantasse o texto e que fosse simples e acessível, sem deixar de ser nobre e digna (o Concílio viria a falar de “nobre simplicidade” na liturgia). Escreveu, na altura da publicação dos Salmos Responsoriais e Aclamações, da Quaresma e Tempo Pascal: “O autor esforçou-se por respeitar escrupulosamente o texto – adornando o refrão com uma melodia simples, acessível e direta mas digna, e tratando os recitativos de modo que a música não sufoque a palavra mas ajude a exprimir a mensagem e a sugerir os sentimentos de adesão a Deus ou proclamação das suas maravilhas… parece-nos de condenar a prática que aqui e além se vai enraizando de sobrecarregar um salmo com uma música complexa…”
O P. Dr. Manuel Luís é, na música sacra, o ponto de viragem de o ANTES para o DEPOIS. Autor inspirado e fecundo, é caso para questionar até onde poderia ter ido a sua obra se a morte o não levasse tão precocemente.

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