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Quem passa por… Turquel

Embora tenha nascido em Lisboa, sou de Turquel. Querem a prova? Benfiquista ferrenho, abro uma exceção sempre que o HCT defronta os encarnados. E já tive discussões violentas, na bancada da Luz, com adeptos lampiões! Como se explica isto? É um amor de 52 anos. São dali as minhas raízes familiares e embora tenha toda a minha vida na Grande Lisboa, e more na bela zona de Azeitão, o chamamento mantém-se: é em Turquel que carrego baterias.
Nunca morei em Turquel. Mas ali passava verões e fins de semana. O meu Turquel é, portanto, o de um tempo que não volta – a aldeia do Oeste, as terras de lavoura do meu avô, a junta de bois que aparelhava e conduzia «à soga», do alto do meu chapéu e do meu aguilhão. É o som dos cacarejos da criação, o manejo da sachola e da gadanha, a vindima, a lagaragem, que ainda domino, o vinho, que continua a fazer-se lá em casa. Aqueles cheiros antigos, a terra molhada, o cereal seco na eira, o esterco misturado com palha no curral. Perto de uma estrebaria, sou sempre transportado para junto dos queridos bois do meu avô. Já a eira era o «parque infantil», onde aprendi a andar de bicicleta e de patins, onde ainda hoje dou uns toques de bola com o meu filho: a baliza é a arribana e a trave é o beirado de telhas, ciclicamente partidas por anos e anos de boladas. Lá dentro, reformado e sereno, repousa o velho carro de bois…
Turquel era campónio e cheio de tabernas. A do sr. Armando do talho, a do outro sr. Armando, a dos irmãos Agostinho, a do sr. José Elias, nas Eiras. Na Feitosa, a do meu tio Fernando e a do sr. Manuel Pedras. Todas tinham mercearia e em todas eu fazia os recados à minha avó, encontrando os gloriosos bêbados da aldeia, o culto Piranga, o ingénuo Julinho e o maior de todos, o famoso Pirandó. Ao final da tarde, toca para casa da Ti Josefa, buscar o leite acabado de mungir. De manhã, ala para a padaria Lérias, comprar papo-secos, porque, estupidamente, ainda não tinha aprendido a gostar do pão caseiro feito no forno lá de casa…
Restam-me, agora, os amigos de infância e os passeios com o cão, no vale da Granja ou no caminho do Silval, à procura de ninhos de melro.

Filipe Luís, Editor executivo da revista Visão

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