Um dia falarei da Quinta da Serra ao meu filho

Rodrigo Santos
Nutricionista e investigador

Na primeira vez que falar da Quinta da Serra ao meu filho será, para ele, como foi para mim na primeira vez que a vi. Também eu não via mais do que um amontoado de “casas velhas” entre o mato que as escondia, e que emerge, agora, no que resta daquela Quinta. Ainda assim, não será para ele, como não foi para mim nem pode ser para ninguém, tarde demais. Tarde será quando nada mais houver a fazer para salvaguardar algo que lembre a todos que ali ficou o suor do trabalho dos que, em muito, contribuíram para a construção do que hoje é a Benedita. Muitos, sangue do nosso sangue.

Ele perguntar-me-á, de forma curiosa, sobre a sua origem. A curiosidade não é exclusiva das crianças. Também os adultos constroem o conhecimento através do levantamento de hipóteses, que podem ser depois confirmadas ou descartadas. Foi isso que aconteceu recentemente. Havendo peças soltas quanto à origem da Quinta, um grupo de cidadãos foi levantando hipóteses para a decifrar.

Ele estranhará porque terá sido necessário tal movimento para proteger a história da freguesia que viu o seu pai crescer. Pois, dir-lhe-ei que logo vieram os “velhos do Restelo”, e de Cister. Os primeiros desvirtuaram por completo o sentido do que deveria ser a preservação e valorização do património e memória que caracterizou o desenvolvimento da Benedita. Levaram muitas pessoas a pensar que proteger aquele património impediria a concretização da ALEB. Não, isso nunca foi considerado! O que se pretende é a integração do passado e futuro da freguesia. Se hoje a Benedita é o que é industrialmente, devê-lo-á também à Quinta da Serra, que apesar de degradada, constituirá um exemplo de arqueologia industrial valioso. Os segundos, que em muito contribuíram para a valorização do património do concelho, mais a norte, descartaram legitimamente as hipóteses recentemente apontadas em torno da origem da Quinta. No entanto, não conseguem, e ao mesmo tempo parecem prescindir de explicar a existência e origem de uma Quinta senhorial com perto de 300 anos (que se saiba!), construída no que era, naquele tempo, território de Santarém.

“E como acaba a história? Com certeza algo tão importante foi protegido!” – exclamará ele. Sabemos, agora, que a DGPC sugeriu à CM de Alcobaça considerar a Quinta da Serra como património de interesse municipal e a decisão dependerá do executivo. Por isso, quero muito poder dizer-lhe: “Vem comigo, vou mostrar-te como a recuperaram!”.

Rodrigo Santos
Nutricionista e investigador

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