Opinião

Banner_FlemingOliveira

Uma questão de idade

Nos meus tempos de rapaz, com 50 anos de idade já se era considerado “idoso”. A velhice, hoje em dia, é também uma construção social e a sociedade viu surgir dois momentos bem diversos, a adolescência (que se mistura por vezes com a infância e a segue), e a idade adulta. E essas duas décadas, por vezes três, que separam a cessação da atividade profissional do momento em que as insuficiências físicas e mentais eliminam a autonomia, fazem um “velho”.
Antigamente, a esperança de vida, tornava muito curto o período entre a cessação da atividade e a morte, que com frequência antecipava-se aquela. Atualmente, muitos milhares de portugueses reformados são “maduros”, sem estarem senis!
As evidências biológicas não são escamotáveis, envelhece-se muito cedo, e aos trinta e tal anos o organismo atinge a fase de maturidade. Toma-se consciência do declínio físico, através do uso de óculos para ler, de alguma surdez, a falta de fôlego ao subir escadas ou numa corridinha, tensão arterial elevada, a irritabilidade perante ninharias, enquanto que a degenerescência intelectual se traduz em “lapsos” da memória, primeiro relativamente a nomes próprios, depois ao passado recente, enquanto as recordações antigas permanecem nítidas. Rebuscando no baú das memórias, o “idoso” deixa de ser contemporâneo da sua própria história e este “laudator temporis” aborrece, quanto basta, os próximos, irritados com as suas manias “despropositadas”. Com a idade emergem, ou tornam-se mais intensos, o gosto pelo conforto, pelo sol, descanso ou requinte, a procura de notoriedade familiar ou social, bem como o desejo de reconhecimento do mérito. Prosélito da sua maneira de ser e viver, o “idoso” exaspera por aquilo que pelos outros é percebido ou entendido como uma indevida autossatisfação. A expressão popular “voltar à infância” é adequada, já que aos poucos se vão substituindo os alimentos sólidos por líquidos ou papas, o médico torna-se um pai e a enfermeira uma mãe. Daí uma sábia conclusão: “O velho é uma caricatura da criança, uma criança que caminha para futuro nenhum, a velhice é uma infância vazia, uma infância absurda”.

Outras notícias em Opinião

  • Lista de compras: uma tarefa para o seu dia

    A população portuguesa, e não só, está a passar por um período extremamente difícil e sensível. A saúde, bem como a saúde, estão em risco.…

  • O que posso fazer para me sentir melhor de quarentena em casa?

    Caro leitor, cara leitora, Durante os últimos dias, tem sido visível a quantidade de notícias que surgem nas televisões e nas redes sociais, sobre o…

  • Testemunho. Uma jovem fala como vive a atual quarentena

    Acho giro como o mundo lá fora anda tão silencioso, as pessoas tão bem-educadas e reservadas. Mas basta um suspiro, um sorriso, um olhar para…

  • Televisão em Alcobaça no início das emissões

    A televisão começou a funcionar regularmente em Portugal em 1957. Mas já há algum tempo se falava do início das emissões, e até se dizia…

  • Nas ruas desertas de Roma

    A imagem tem a força de um filme épico: Francisco caminhando pelas ruas desertas de Roma, para rezar pela cidade e pelo mundo. Saindo a…

  • Papagaios, abutres e gente boa

    As calamidades trazem sempre à tona qualidades e defeitos das gentes que as vivem. Aquela em que nos encontramos já nos “revelou” que há na…

  • Editorial. Extraordinários

    Neste 2020, em cada edição, pessoas extraordinárias em algum aspeto da sua vida, com ligação à nossa região. Os extraordinários desta vez são obviamente os…

  • “Una e santa”

    Pelo menos na Eucaristia de Domingo, no Credo, os católicos confessam que confiam na Igreja una e santa mas, perante a quantidade de protestos que…

  • Vamos açambarcar

    Está aí o Covid-19. Como tantas outras alturas de ameaça de crises, vamos lá a açambarcar. Dei por isto na passada semana quando fui ao…

  • Editorial. Extraordinários

    Neste 2020, em cada edição, pessoas extraordinárias em algum aspeto da sua vida, com ligação à nossa região. Os extraordinários da nossa região são do…