Opinião

Caracteres

Por razões que os enganos sempre explicam, para aceder à solicitação de colocar em 2.000 caracteres alguma ideia ou reflexão que a actualidade justificasse, dei por mim a escrever sobre o tempo dos mortos, e satisfeito, senão pela qualidade do que havia conseguido escrever, pelo menos pela circunstância de ter conseguido pôr isso tudo em 2.000 palavras.
É evidente que 2.000 palavras não são 2.000 caracteres, mas para quem sempre se habituou a contabilizar a unidade de comunicação em palavras e não noutra medida, o engano tem tanto de evitável como de justificado. Além de que, nascido no tempo dos escribas e não no dos “teclistas”, cada palavra significava um e único gesto de escrita, no sentido de que a caneta pousava no papel para escrever cada uma delas e apenas se levantava no final (exceptuando obviamente aqueles casos em que se tinham de colocar os acentos). Porém, agora, quando escrever significa, por regra, escrever em computador, cada gesto corresponde a uma letra (um caractere), sendo que até os intervalos em branco, correspondendo também ao gesto de premir uma tecla, recebem por igual a designação de espaços/caracteres.
Foi, pois, esta, a única razão para que a reflexão sobre o tempo dos mortos tenha saído em forma de “texto a prestações” e não para que, cada um que tivesse o incómodo de ler esses pedaços de prosa, criasse expectativa quanto ao que a continuação prometia, fórmula esta de gestão do interesse criada há muito pelas telenovelas mas absolutamente dispensável para quem se queira fazer entender ou expressar de forma eficaz, rápida e completa.
É que entre as muitas virtudes que as esperas contêm, decerto que a da revelação em prestações não é uma delas.
Mesmo o Natal esperado durante séculos, teve Revelação num único acto de nascimento. E dando origem a muitas palavras, a verdade é que todo esse mistério cabia, até agora, numa única: o “Verbo”. Mas talvez a partir de agora se tenha de dizer também que o mistério cabe em 5 caracteres.

Outras notícias em Opinião

  • Books & Movies 2018– Festival Literário e de Cinema de Alcobaça

    Um estreito encontro entre artistas e públicos De 8 a 14 de outubro, Alcobaça recebe, pela 5.ª vez, escritores, realizadores e artistas. O Festival Books…

  • A nova Missa

    O Papa Francisco decidiu que, a partir deste ano, a Missa do dia seguinte à festa de Pentecostes passará a ser a memória litúrgica de…

  • O mundo das pedras vulcânicas

    A recente exortação apostólica do Papa Francisco, dedicada à santidade, evoca o curioso romance de Joseph Malègue intitulado “Pierres noires: Les Classes moyennes du Salut”…

  • Mais uma do Papa Francisco

    Por altura do Natal, as televisões noticiavam que o Papa, nos votos da quadra aos seus cardeais, teve esta contundente frase: “Fazer reformas em Roma…

  • Tiques à portuguesa

    Há fenómenos modísticos de linguagem e de outras naturezas que se manifestam ciclicamente na nossa sociedade. Alguns desses fenómenos esfumam-se com rapidez, outros perduram no…

  • A quem incomodam os achados arqueológicos do parque verde?

    Os achados arqueológicos do Parque Verde estão na ordem do dia. Depois de os ter ocultado à vereação e à população durante semanas, a câmara…

  • Verdade ou mentira

    A recente e ainda actual polémica sobre a Caixa Geral de Depósitos, bem mais que colocar na agenda dos dias a questão da honorabilidade da…

  • Vento ruim

    Um vento ruim sopra do outro lado do Atlântico. Ele, porém, foi prometido. Em regra, as promessas dos políticos, em campanha, são tudo menos terríveis.…

  • Roma Æterna, às portas do Kremlin

    Nos tempos do império romano, falava-se da Roma Eterna, mas foi com o cristianismo que Roma conseguiu verdadeiramente sobreviver à caducidade dos séculos. Inclusivamente, alguns…

  • Batatas, feijões e a loja do cidadão!

    O turismo em Portugal cresce a olhos vistos. A construção de um “Welcome Center”, para receção de turistas, afigura-se-me prioritário para Alcobaça, onde se divulgue,…