Opinião

Caracteres

Por razões que os enganos sempre explicam, para aceder à solicitação de colocar em 2.000 caracteres alguma ideia ou reflexão que a actualidade justificasse, dei por mim a escrever sobre o tempo dos mortos, e satisfeito, senão pela qualidade do que havia conseguido escrever, pelo menos pela circunstância de ter conseguido pôr isso tudo em 2.000 palavras.
É evidente que 2.000 palavras não são 2.000 caracteres, mas para quem sempre se habituou a contabilizar a unidade de comunicação em palavras e não noutra medida, o engano tem tanto de evitável como de justificado. Além de que, nascido no tempo dos escribas e não no dos “teclistas”, cada palavra significava um e único gesto de escrita, no sentido de que a caneta pousava no papel para escrever cada uma delas e apenas se levantava no final (exceptuando obviamente aqueles casos em que se tinham de colocar os acentos). Porém, agora, quando escrever significa, por regra, escrever em computador, cada gesto corresponde a uma letra (um caractere), sendo que até os intervalos em branco, correspondendo também ao gesto de premir uma tecla, recebem por igual a designação de espaços/caracteres.
Foi, pois, esta, a única razão para que a reflexão sobre o tempo dos mortos tenha saído em forma de “texto a prestações” e não para que, cada um que tivesse o incómodo de ler esses pedaços de prosa, criasse expectativa quanto ao que a continuação prometia, fórmula esta de gestão do interesse criada há muito pelas telenovelas mas absolutamente dispensável para quem se queira fazer entender ou expressar de forma eficaz, rápida e completa.
É que entre as muitas virtudes que as esperas contêm, decerto que a da revelação em prestações não é uma delas.
Mesmo o Natal esperado durante séculos, teve Revelação num único acto de nascimento. E dando origem a muitas palavras, a verdade é que todo esse mistério cabia, até agora, numa única: o “Verbo”. Mas talvez a partir de agora se tenha de dizer também que o mistério cabe em 5 caracteres.

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