Opinião

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Editorial. Populismos regionais

“O homem é o homem e a sua circunstância”, defendeu sabiamente Ortega y Gasset
O meu pai nasceu e cresceu no Alentejo. Concluída a 4.ª classe, o meu avô foi pedir trabalho para os filhos à família Capoulas só em troca da comida. Trabalho sim, a guardar porcos, comida não. No fim do mês, a família recebia uma porção de azeite e farinha. A exploração laboral no Alentejo era gritante, onde os pobres nem tinham o seu bocadinho de terra. Da tal família Capoulas, viria um ministro de vários governos socialistas e logo da Agricultura. Nunca é tarde para ganhar consciência social e ter nova visão sobre o trabalho agrícola, mas… afinal a elite (do latifúndio) elite se manteve (no poder).
O 25 de Abril não encontrou o meu pai e irmãos no Alentejo. Abrindo-se uma porta no seminário para o mais velho, todos estudaram, entre as maiores dificuldades, e procuraram melhores condições de vida. Não desenvolveram, assim, o necessário ressentimento que propiciasse a adesão à «luta de classes». Pelo contrário, uma tia-avó dizia: “enquanto me lembrar que trabalhava de sol a sol e que, para ir ao baile sábado à noite, tinha de pedir uns sapatos emprestados, nunca posso ser do partido dos ricos”. E a minha mãe comentava: “se tivesse nascido no Alentejo, talvez fosse comunista”. Essa sua capacidade de se colocar no lugar dos outros e de compreender uma escolha política díspar da sua foi para mim marcante. Embora veja de forma diferente a democracia e os caminhos para a justiça social e o desenvolvimento, tenho naturalmente amizade e, em alguns casos, até extraordinária estima por comunistas.
Vivi em pequena o 25 de Abril, o PREC, as convulsões em Alcobaça. Alegrei-me com a queda do muro de Berlim. Em Portugal, Mário Soares candidatava-se a presidente contra, como está escrito, “a esquerda totalitária” e a “direita restauracionista”. As minhas ciscuntâncias, o que vivi, não permitem que concorde com a elite e comentadores de Lisboa, que olhando o resto do país pelos binóculos do privilégio, entendem que a “esquerda totalitária” se evaporou e que a única ameaça à democracia é o populismo do Chega. No próximo editorial, ainda as eleições e os populismos regionais.

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