O desgosto do Maestro Gavino

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

Falar da Orquestra Típica de Alcobaça sem referir a figura do maestro António Gavino é impossível. António Máximo Gavino Simões do Couto nasceu em abril de 1923. Sendo assim, se fosse vivo, faria, em breve, um século de vida.

Fundou e dirigiu as Orquestras: Típica Scalabitana, da Rádio Clube de Moçambique, de Alcobaça e de Rio Maior. Além de outras composições, criou a Marcha Ribatejana. Recebeu várias homenagens, nomeadamente a de Scalabitano Ilustre, concedida pela Câmara Municipal de Santarém. Faleceu em 2005. Vai para muitos anos que fui à Azinhaga (no coração do Ribatejo), onde residia, acompanhado por Adélio Maranhão: um minhoto que tem ligações familiares a terras alcobacenses. Foi funcionário do Tribunal de Alcobaça, tendo sido transferido posteriormente, para o de Rio Maior. Chegou a ser, embora por um período curto, diretor de “O Alcoa”. Maranhão conhecia bem o maestro, até pelo facto de pertencer ao coro da orquestra riomaiorense. Ambos colaborámos no jornal Região de Rio Maior. A razão da viagem foi entrevistar o maestro António Gavino. Entrámos numa casa antiga, austera, no estilo dos lavradores ribatejanos.

Começou por nos falar de José Saramago, seu conterrâneo, com uma diferença de idade de menos de meio ano. Era já uma figura cimeira da Literatura Portuguesa.

Valorizava-se em demasia, as caraterísticas do feitio de António Gavino. Tinha fama de austero, duro e algo convencido do valor que tinha. A verdade é que o maestro era muito mais do que isso: um criador musical com uma qualidade rara e muito exigente. Quando o entrevistei, vi um homem muito inteligente, conservador, com um discurso fluído que falava do essencial e não havia futilidades. Foi de uma educação, simplicidade e simpatia sem limites. Era senhor de uma ironia acutilante. Via-se nas entrelinhas das suas palavras que tinha a noção do seu valor. Nunca mais o voltei a ver.

Vamos, então, após este preâmbulo, ao que, aqui, me trouxe e que justifica o título deste artigo.

Transcrevo a página 7 do livro “A Orquestra Típica e Coral de Alcobaça”, do Dr. Fleming de Oliveira: “De acordo com Fernando Zeferino, em meados de 1956, o Coral e Orquestra Típica de Rio Maior visitou-nos e proporcionou-nos uma ótima audição no nosso Teatro, por iniciativa do

saudoso alcobacense José Couto de Pinho, residente naquela vila. Pinho, entretanto, adoeceu e regressou a Alcobaça”. Viveu em Rio Maior vários anos, onde tinha uma representação de máquinas de costura. Este último dado foi por mim recolhido junto de dois riomaiorenses, de avançada idade, que ainda o conheceram.

Do mesmo livro, cito: “no dia 11 de Novembro de 1956, sentaram-se na última mesa do lado esquerdo de quem entra, no Café Restaurante Trindade, além de Couto de Pinho, Manuel Tomás Correia, Fernando Zeferino, Pacheco Rodrigues, Francisco André e António Gavino”. A reunião durou pouco mais de uma hora. Nascera a Orquestra alcobacense: “o maestro Gavino marcou para terça feira o primeiro ensaio que teve lugar na sede do Rancho d’ O Alcoa, tendo levado consigo dois tocadores de violão, da Orquestra de Rio Maior”. Não recebia honorários e deslocava-se de Rio Maior onde vivia, utilizando a boleia ou mesmo camionetas de carga, para não sobrecarregar a coletividade e a sua própria bolsa”.

Notas finais – Gavino, já depois da entrevista ter terminado, disse- -me, em “off”, maravilhas de Alcobaça. Recordou o último espetáculo de 25 de março de 1961. Afirmou que “Foi uma despedida comovente e emocionante”. Parou de falar. Vi no seu rosto uma lágrima fugidia e rematou “não quero morrer sem levar a Orquestra riomaiorense a Alcobaça”. Percebi que a necessidade de fazer a despedida final de uma terra onde tinha sido feliz, era maior que uma montanha.

Na altura, fiz um apelo n’ O Alcoa para que o convite fosse feito ao maestro. Ao Vereador da Câmara alcobacense, Rogério Raimundo, meu companheiro nos tempos do Liceu, pedi que levasse o assunto a sessão de Câmara. Assim aconteceu. O assunto não teve seguimento. Aproveito esta oportunidade para enviar “Aquele abraço!” ao Rogério, que já não vejo há anos. Muito mais tarde, “por portas e travessas” disseram-me que tinha havido uma “trica” nunca resolvida. Daí, essa atitude do “esquecimento”.  

Por não ter a certeza da veracidade dessa informação, e tendo em consideração que as pessoas envolvidas já cá não estão, diz-me o bom senso que devo ficar por aqui. Do que eu não tenho a mínima dúvida é que o maestro morreu com esse desgosto – não se ter despedido de Alcobaça durante um espetáculo! Teria sido o adeus final: o rematar de uma vida ao serviço da música.

Ficou por acontecer, mas esse facto deveu-se às circunstâncias da própria vida.

João Luís Maurício
Professor de História aposentado

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