O ultimato e a crise

Fleming de Oliveira
Advogado

A Alcobaça nos fins do século XlX as notícias chegavam atrasadas, e a imprensa local tal como as pessoas estavam mais preocupadas com os assuntos correntes, como a carestia de vida, o abastecimento de géneros alimentares na vila, a falta de moeda metálica, o que dificultava as transações e poderia afetar a ordem e tranquilidade públicas. Os preços dos principais géneros alimentares estavam a aumentar rapidamente tornando bastante difícil o dia a dia, se não a própria subsistência das classes mais desfavorecidas. O milho era pouco, não obstante a candonga, sendo o seu preço 660 reis, 300 reis o feijão, 640 reis o centeio e 299 reis o trigo, tendo em conta a medida tradicional de 17 litros. O azeite ia sendo suficiente, sem necessidade de se utilizarem canais irregulares.

Não obstante a animosidade contra a Inglaterra, fruto do ultimato, havia em Alcobaça procura crescente de libras ouro pois cada uma valia 800 reis, e os estabelecimentos do Zé Militar e a Loja da Bola Encarnada, propunham-se adquiri-las a quem as quisesse vender, o que não era frequente, salvo desespero de causa.

A crise financeira de 1891, deveria ser tema de estudo na História Portuguesa, do século XIX. A ela está ligado o fim de um período de estabilidade monetária e cambial, bem como de relativo desenvolvimento económico. A crise começou por ser financeira, pois as finanças do Estado e o sistema bancário colapsaram. Depois, a acarretou uma crise económica, e a estagnação do crescimento da riqueza, tendo como pano de fundo a crise política despoletada pelo Ultimato, a que se juntou mais uma crise financeira provocada pelos encargos do Estado com a dívida externa consolidada, que tinham ascendido, em 1891, a cerca de 20% das suas despesas.

A falta de dinheiro, muito mais que a falta de moeda metálica para trocos, tornou-se um dos principais fatores de perturbação da vida portuguesa, na década de 1890. A opinião pública de Alcobaça ficou muito chocada com a morte, em fevereiro de 1891, do lavrador Manuel da Costa Lourenço às mãos um servo, a quem devia 3 semanas de jorna, alegadamente por falta de dinheiro para lhe pagar. O criminoso fugiu, acabando por ser descoberto e preso sem oferecer resistência, refugiado num algar, após ter sido denunciado às autoridades por um cabreiro dos Casais de Stª. Teresa. Entretanto, à crise financeira e política, juntou-se em 1892 uma depressão económica, que afetou os países europeus, e que obrigou o governo português, no mês de janeiro, a afirmar que seria impossível pagar pontualmente os encargos com a dívida. O regime monetário, consagrado pela Carta de Lei, de 29 de julho de 1854, era o padrão-ouro, adotado pela Grã-Bretanha, que era a referência, liberalizado o trânsito de metais com o exterior, assim como a amoedação de ouro pelos particulares, pois a da prata estava sujeita a autorização oficial. Este regime, especialmente, através destes direitos de amoedação, colocava a emissão da moeda-padrão no controle do mercado e a liberalização do trânsito de metais com o exterior, dava ao mercado o controle do volume de moeda em circulação. A principal razão da adoção deste regime monetário, terá sido a necessidade de criar um ambiente de confiança para o investimento estrangeiro, sobretudo da praça de Londres, a mais importante do mundo, que viabilizasse os projetos de obras públicas lançados nas décadas anteriores.
(continua)

Fleming de Oliveira
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